Harvard Business Review - Brasil - Edição 9711 (2019-11)

(Antfer) #1

HBR:Comoprimeira-ministra,
comovocêconseguiaqueas
coisasacontecessem?
GILLARD:A máquinadogoverno
é tãograndequeeuliteralmente
costumavadizera mimmesma
“oueua administro,ouelame
engole”.Sea únicacoisaque
eufizessefosseresponderaos


pontosprincipaisdomeugoverno
foramasreformaseducacionaise
o seguroporinvalidez.E,embora
tenhamosfeitomuitasoutras
coisas,sempreestivemosdeter-
minadosa fazercomqueesses
pontosfossemcumpridos.

Emseusistemaparlamentar,
comoseformamalianças?
Procuramospartidosmenorese
independentese levamosemcon-
sideraçãoseuspontosdevista.
Políticospassamumbomtempo
conversando.Eupassavao tempo
pensandonoqueerafundamen-
talparamime o quepodiaser
negociado,mastambémouvindo,
defato,meuscolegas,e tentava
identificaro queeraimprescin-
dívelparaelese o quepodiam
negociar.Aspessoasrespondem
quandolevadasa sérioe tratadas
demaneiradecente.Dessaforma,
mesmoquandovocêacabache-
gandoà conclusãodequedevem
concordaremdiscordar,umlaço
humanoé criado.

Vocêsofreugolpesdeseus
adversários,daimprensa,do
seuprópriopartido.Comolidou
comisso?Trabalhandoemcima
domeuprópriosensodeidenti-
dade.Nãopodiamesentirbemou
maldeacordocomasmanchetes.
Haviaumamulherquepegavaos
jornaisparamimnaresidência
oficial;depoisquesaídogoverno
elamedissequesempretentava
colocarnotopodapilhaaquele
coma manchetemaisagradável,
masalgumasvezesficavaa ponto
dechorarpornãoconseguirde-
terminarqualeraa menosnegati-
va.Masaquilonãosignificavaque
eudeixaradesera JuliaGillardde
sempree metornaraummonstro.
Sabiaque,emúltimaanálise,o

“A vidapolíticanãoé paratodos,mas
liderarumanaçãoe fazerumagrande

diferençaemrelaçãoa seufuturo
é umprivilégioincrível.”

JULiA giLLArd


Gillardfoiprimeira-ministradaAustráliaentre 2010 e 2013, a
únicamulhera ocuparo posto.Atraídapela política quando ainda
eraativistaestudantil,elapersistiudepois de sofrer derrotas
emsuasprimeirascandidaturasatéconquistar a liderança do
PartidoTrabalhista.Depoissetornouvice-primeira-ministra no
governodeKevinRudd,antesdedisputarcom ele a eleição para
primeiro-ministro.Em2012,Gillardganhou fama mundial graças
a umdiscursoemquecondenavapublicamente a misoginia. Um
anodepois,Rudda venceunabatalhapela liderança e ela deixou
o governo.Atualmente,Gillarddedica-seà defesa de causas que
incluemeducação,igualdadedegêneroe saúde mental.
Entrevistaa AlisonBeard

Mark
Harrison/Camera

Press/Redux

que contaria seriam as coisas que
eu conseguisse conquistar como
líder do governo. É preciso disci-
plina e resiliência, mas acredito
que ambas são músculos. Se você
as exercita, ficam mais fortes. E
eu malhei bastante.

Por que decidiu se manifestar
contra o sexismo? O homem que
eu havia apoiado para ser presi-
dente da Câmara dos Deputados
foi desmascarado. Revelou-se
que ele enviara mensagens
sexistas. Então eu esperava ser
criticada, ainda que eu desco-
nhecesse por completo o teor das
mensagens. Durante a sabatina
no Parlamento, enquanto o líder
da oposição, Tony Abbott, estava
falando, eu escrevi uma resposta
à mão. Pedi que me passassem
as citações sexistas mais graves.
Mas não era uma estratégia
elaborada com um discurso bem
delineado e trabalhado por nós
durante vários dias. Foi algo que
jorrou. Acho que surgiu de uma
profunda frustração. Depois de
eu ter calado perante todas as
situações sexistas que eu mesma
vivenciara, naquele momento
fui acusada de sexismo. A raiva
impulsionou meu discurso.

De que forma você lidou com
a repercussão? No início fiquei
confusa e achei divertida a
proporção que aquilo tomou.
Depois,fiqueiressentida:estive
por 15 anosnoParlamentoe tudo
sereduziua esseúnicodiscurso.
Masagoraestouempaz.Seessa
é a únicacoisaqueosestran-
geirossabemacercadapolítica
australiana,e emgeralé isso
mesmo,entãoé umacoisamuito
boadesaber.
hbrreprintR1911H–P

pedidos que chegam até mim, eu
já teriatrabalho para o dia inteiro;
masnão estaria cumprindo a
agenda. Por isso, é preciso ser
implacavelmente clara a respeito
dessaagenda e obrigar a máquina
a priorizá-la — nas tomadas de
decisão, avaliações de gastos, im-
plementações, comunicações. Os

Corpo e Alma


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