Público - 24.10.2019

(Axel Boer) #1

18 • Público • Quinta-feira, 24 de Outubro de 2019


SOCIEDADE


“Atenção aos professores


que vamos ter daqui a dez anos!”


Nuno Crato Professor, divulgador cientíÄco e ex-ministro da Educação lembra


que temos uma classe docente muito envelhecida e diz que a formação, selecção


e carreira dos professores são questões centrais nos próximos anos


O programa foi apresentado
publicamente esta semana: 20
milhões de euros da família Soares
dos Santos, para gastar nos
próximos dez anos em projectos
que se destinam a promover o
sucesso escolar. Nuno Crato,
ex-ministro da Educação do
Governo liderado por Pedro Passos
Coelho (2011-2015), dirige a Teresa e
Alexandre Soares dos Santos —
Iniciativa Educação. O professor de
Matemática e Estatística diz que
este é um contributo para resolver
alguns dos muitos problemas que a
educação do país enfrenta,
juntando especialistas que
promovam boas práticas, que
sejam replicáveis para além das 33
escolas que já estão envolvidas.
Nesta fase, insiste que não quer
falar de política nem comentar
reformas em curso. Não deixa,
contudo, de responder quando se
lhe pergunta qual é o grande
desaÆo para o Governo que vai
tomar posse no sábado: atenção ao
envelhecimento da classe docente,
aos milhares de professores que se
vão reformar nos próximos anos, é
preciso criar condições para que os
novos, que aí vêm, “sejam pelo
menos tão bons como os que hoje
temos”.
Um dos programas da Iniciativa
Educação chama-se de AaZ —
Ler melhor, saber mais e
destina-se a ajudar os alunos do
1.º e 2.º anos do ensino básico a
ler. As diÆculdades que as
crianças revelam existiriam, se
houvesse melhor formação de
professores?
Este problema pode sempre
colocar-se. Temos excelentes
professores do 1.º ciclo, temos
um corpo docente muito
qualiÆcado e muito experiente...
E muito envelhecido também...
Sim, e esse é um problema muito
importante. Mas mesmo o melhor
professor pode, por vezes, não
detectar as diÆculdades especiais


de um aluno. E [detectando] não
tem tempo para dar a esse aluno a
atenção extra-escolar de que ele
seguramente precisa. Portanto, o
problema não é de os professores
não terem a qualidade necessária
ou a qualiÆcação necessária para
ajudar todos os jovens a progredir.
O problema é que em quase todas a
turmas existem casos de alunos
com diÆculdades superiores às dos
restantes alunos e que precisam de
um apoio especíÆco, que é
necessariamente temporário, para
atingir o nível dos outros. Este é um
assunto que a literatura cientíÆca a
nível internacional tem discutido
há muito tempo. E há muito que se
percebe que este tipo de atenção
particular é necessária.
Estamos a falar de alunos com
necessidades especiais?
Não lhe chamo necessidades
especiais. Estou a falar de alunos
que do ponto de vista cognitivo têm
um desenvolvimento muito
semelhante aos dos outros, mas
que, por diversas circunstâncias
(que podem ser psicológicas num
determinado momento, de
crescimento, o que seja), não
adquirem a Çuência de leitura de
que precisam numa determinada
altura da sua escolaridade, o 1.º e
2.º anos. E as diÆculdades na leitura
não tendem a desaparecer. Pelo
contrário, tendem a aumentar. Um
jovem que tem mais diÆculdades
em certo momento esconde o
problema, Ænge que não tem e, sem
saber como, começa a ter muitas
diÆculdades ao longo da sua
escolaridade. E quanto mais isto se
arrasta no tempo, mais difícil é
apanhá-lo.
O vosso programa de AaZ [que
será desenvolvido em 25
escolas] prevê
professores-tutores para
acompanhar esses alunos. Quem
os escolhe?
Temos várias situações. Situações
em que as autarquias ajudam a
escolher os professores-tutores.
Temos professores-tutores que nós
próprios contactamos para serem
professores-tutores. E nos Açores o

política [educativa] do país a médio
prazo. Todo o processo de formação
inicial de professores, de selecção
de professores e de
acompanhamento da carreira é um
problema central. Sabemos que
uma percentagem muito grande
[47%, segundo a OCDE] dos
professores portugueses tem mais
de 50 anos, que uma percentagem
muito grande está perto da reforma
e que a larga maioria vai ser
substituída nos próximos dez, 15
anos. E terá de ser substituída por
novos professores. Quem são os
novos professores que vão chegar?
É um problema que o país devia
enfrentar de frente.
Como ministro impôs uma prova
de avaliação de docentes...
Terei todo o gosto em
pronunciar-me sobre isso noutra
altura.
Quer dar algum conselho ao
novo Governo, ou propor
alguma meta prioritária, na área
da educação?
Atenção aos professores que vamos
ter daqui a dez anos! Que sejam pelo
menos tão bons como os que hoje
temos.
O sucesso do tipo de projectos
que a Iniciativa Educação está a
desenvolver nas escolas depende
muito da autonomia que as
escolas têm. Há hoje uma cultura
diferente, mais autónoma?
Se eu comparar com há dez anos,
quando visitei muitas escolas, vejo
uma grande diferença. Houve
mudanças legislativas e houve o
confronto das escolas e dos
professores com os resultados dos
alunos, através das avaliações
internacionais, como o PISA, e da
disponibilização de informação
sobre o que se passa nas escolas. O
país hoje está mais virado para os
resultados, as escolas passaram a
assumir mais as suas
responsabilidades e os professores
passaram a ter mais instrumentos.
O actual regime de autonomia
prevê um aumento gradual da
mesma, com a possibilidade de
as escolas gerirem mais de 25%
do seu horário semanal. Há

O país hoje está
mais virado para
os resultados, as
escolas passaram
a assumir mais
as suas
responsabilidades

Entrevista


Andreia Sanches


governo regional ajuda a
seleccionar professores para esse
trabalho.
Qualquer escola pode entrar em
contacto convosco?
Claro. E teremos todo o gosto em
dar algo que se assemelha a uma
consultoria. Mas o nosso principal
objectivo é que escolas e autarquias
se apropriem dos melhores
métodos para ajudar a resolver os
problemas que os estudantes
possam ter.
Disse que temos professores
experientes...
Passámos diÆculdades Ænanceiras
muito grandes, muitas alterações e
os professores responderam muito
bem e conseguiram que o nosso
ensino melhorasse.
... Mas quando era ministro foi
muito crítico em relação à
formação dos professores. Até
abriu uma guerra com as escolas
superiores de Educação...
Não abri guerra nenhuma.
Disse numa entrevista que a
formação de base que era dada
aos professores tinha falhas, o
que provou grande indignação.
Leram coisas que eu não disse.
Já passaram uns anos e a
formação que é dada pode ter
melhorado...
E pode ter piorado...
O que é que acha?
A maioria dos professores que
temos foi formada noutra geração,
noutra base. A formação de
professores é a questão central da
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