Público - 24.10.2019

(Axel Boer) #1
4 • Público • Quinta-feira, 24 de Outubro de 2019

DESTAQUE


CATALUNHA


D


evíamos preocupar-nos
mais com a reemergência
do nacionalismo espanhol
do que com o
independentismo catalão,
em que a corrente
majoritária é democrática e
europeísta.
A sentença contra os dirigentes
catalães é uma monstruosidade
política e um problema grave para
a democracia espanhola.
Democracia que fez do
reconhecimento constitucional do
direito à autonomia “das
nacionalidades” uma linha de
demarcação com o regime
franquista.
A unidade de Espanha é uma
construção delicada, que implica,
em democracia, que o poder
central aceite a existência de
movimentos independentistas e
que criminalizar a manifestação
pacíÆca do desejo de secessão é
um suicídio.
A forma como a Espanha lidou
com a questão basca, não
aceitando participar numa espiral
de violência, foi exemplar. A
recusa de declarar o estado de
emergência, apesar dos atos de
terror, e a procura,
nomeadamente pelo Governo de
Zapatero, de uma solução política,
foi o que permitiu o isolamento da
ETA e a sua dissolução.
O que aconteceu para que hoje,
em relação à Catalunha, com uma
tradição histórica de paciÆsmo, o
Estado espanhol siga uma
estratégia de repressão de direitos
garantidos pela Constituição?
A onda de nacionalismo
populista que atravessa a Europa e
o mundo contamina também a
Espanha, com o aparecimento do
Vox, um partido de extrema-direita

que faz de Franco o seu ídolo, com
um discurso racista,
anti-imigração, contra os
muçulmanos, contra os direitos
das mulheres, contra os direitos
LGTB, mas, sobretudo, contra as
autonomias.
O que caracteriza o
nacionalismo espanhol é a recusa
da pluralidade cultural e nacional
de Espanha. O Vox aÆrma querer
iniciar a nova “reconquista” de
Espanha, expressão carregada de
fundamentalismo cristão, usada
para deÆnir o período das
cruzadas do Ocidente contra os
muçulmanos, mas que é também
uma referência à campanha militar
lançada por Franco, contra a
República democrática, para
impor um regímen fascista que
proibiu o ensino das línguas das
nacionalidades e dizimou os
movimentos nacionalistas.
É bom lembrar que foi o Vox que
apresentou queixa contra os
dirigentes catalães no Supremo
Tribunal Espanhol e que aí atuou
como “acusador” ao lado do
Ministério Público. A participação
do Vox como parte da acusação é
um dos absurdos do processo. No
entanto, toda a direita democrática
espanhola alimentou
perigosamente a onda nacionalista
provocada pela crise catalã. Foi o
que fez o PP, mas também o
Cidadãos, que, criado como um
partido centrista e liberal,
assumiu, com a crise catalã, o
nacionalismo espanhol.
Abstiveram-se na votação da
remoção do corpo de Franco do
mausoléu oÆcial e vêm no Vox um
aliado para formarem governo. Já
é assim na Andaluzia e em Madrid.
O discurso do Vox é monstruoso.
O seu líder, Santiago Abascal,
pede, em nome da “Espanha viva”
não só a suspensão do estatuto de
autonomia da Catalunha, mas
também o de todas as autonomias,
a declaração do estado de sítio e a
dissolução dos partidos
independentistas.
O nacionalismo catalão é
atravessado por várias correntes,

Opinião
Álvaro Vasconcelos

A Espanha nacionalista aqui ao lado


mas as majoritárias, a Esquerda
Republicana Catalã
(centro-esquerda) e o PDeCAT
(centro-direita) são, claramente,
pró-europeus. São partidos
herdeiros de uma longa tradição
democrática independentista:
Lluís Companys, líder da ERC,
Presidente da Catalunha durante a
guerra civil, foi fuzilado a mando
de Franco em 1940.
Barcelona é uma cidade
cosmopolita, lugar da maior
manifestação na Europa pelos
direitos dos refugiados. Na
Catalunha, e de acordo com as
sondagens, os partidos cujos
eleitores são mais eurocéticos são
os da minoritária
extrema-esquerda
independentista da CUP e do
Cidadãos.
É um absurdo considerar que o
independentismo catalão é
equivalente ao nacionalismo do

Vox ou da ETA. Para os
independentistas, como escrevem
na sua lei de desconexão de 2017,
teriam direito à cidadania catalã
todos os que possuindo a
nacionalidade espanhola residam
na Catalunha, desde dezembro de
2016, recusando assim o
nacionalismo identitário, étnico,
da extrema-direita.
Com a vitória do PSOE nas
últimas eleições seria de esperar
que a esquerda tivesse sido capaz
de se unir, de formar governo e de
procurar uma solução política
para a questão catalã, solução essa
que passava, e passa, pelo indulto
dos dirigentes presos e pelo
diálogo.
O líder do ERC, Junqueras,
condenado a 13 anos de prisão, é
um homem de diálogo, que tem
condenado a violência e que
recusa a independência unilateral.
Junqueras é um interlocutor-chave

na procura de uma saída
negociada da crise.
O PDeCAT de Puigdemont e
Torres, apesar de divergir do ERC,
seguindo uma estratégia de tensão
permanente com o poder central,
também condena a violência. A
radicalização violenta de uma
parte da juventude catalã torna
ainda mais imperioso o recurso à
via negocial.
Chegou a hora do diálogo que
hoje depende mais de Madrid do
que de Barcelona. Uma campanha
eleitoral poderá não ser o
momento ideal para negociações
políticas que prometem ser
difíceis; porém, seria bom que
Pedro Sánchez se lembrasse que
Mandela Æcou para a História não
pelas suas vitórias eleitorais, mas
por ter negociado com quem o
considerava um inimigo.

JESUS DIGES/EPA

Fundador do Fórum Demos
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