Público - 24.10.2019

(Axel Boer) #1
6 • Público • Quinta-feira, 24 de Outubro de 2019

ESPAÇO PÚBLICO


As cartas destinadas a esta secção
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CARTAS AO DIRECTOR


Leonardo da Vinci


Li com muito interesse o trabalho
sobre Leonardo da Vinci [na
edição de ontem do PÚBLICO]. É
natural que o sr. Mona Lisa
defenda a sua dama. Na realidade,
o sentido da vida de Leonardo
foram as descobertas cientíÆcas. A
pintura foi o seu sustento. Como
perfeccionista, nunca as deixaria
inacabadas se a pintura fosse o seu
foco principal. Como curioso
insaciável dispersava-se na
descoberta das causas de tudo o
que o rodeava.
Em cada 4000 escritos que
deixou estão muitos dias de
observação e experimentação. Não
se dedicou aos frescos porque esta
técnica exigia ser feita sem
interrupções, o que era
incompatível com o seu frenesim.
Tentou fazer a Batalha de Anghiari
no Palazzo Vecchio de Florença
sem sucesso e fez a Última Ceia em

Milão que se degradou
rapidamente. Não concordo
quando se diz que Leonardo tenha
sido totalmente livre. Dependia dos
patronos que lhe encomendavam
as obras. Ofereceu os seus
conhecimentos de engenharia
militar a Sforza e foi contratado
como músico e animador de festas.
Aceitou o convite de Francisco I
para se mudar para França, no Æm
da sua vida, porque o seu patrono
em Roma, Juliano II de Médici,
irmão do Papa Leão X, já não lhe
reconhecia o seu devido valor, não
só pela suas limitações físicas mas
porque Miguel Ângelo e Rafael
ofuscavam o seu brilho. Que se
diria hoje nas redes sociais de uma
pessoa que apresentava conceitos
incompreensíveis para as pessoas
do seu tempo, que era canhoto,
disléxico, vegetariano, gay e
acusado de abuso sexual de dois
rapazes? Certamente não se dizia o
que Leonardo da Vinci na realidade

foi. Um dos maiores génios da
História da Humanidade.
Mário Martins, Ponte de Sor

O apogeu do Simplex


Quando em devido tempo elogiei
a ministra Maria Leitão pelo
incremento dado ao Simplex,
estava muito longe de imaginar
que tal medida iria tão longe. Se
bem que ainda haja situações que
levam uma secretária de Estado a
dar de conselho para se aproveitar
a ida de férias para o Algarve para
tratar da renovação do cartão de
cidadão, por outro lado Æcamos a
saber que os benefícios do tal
Simplex são inÆnitos. E para ser
muito breve, apenas dois
exemplos de casos ultra-rápidos.
O primeiro, o daquela Ærma
fornecedora das famosas golas
inÇamáveis com sede num parque
de campismo que num instante, e
sem concursos a complicar,

facturou boas maquias e a preços
superiores aos do mercado. No
segundo caso, este com
perspectivas de vir a facturar
algumas centenas de milhões de
euros com a exploração de lítio,
foi criada uma empresa num
ápice de apenas três dias
utilizando as instalações da junta
de freguesia lá do sítio como sede.
Como isto parece que é apenas a
ponta do icebergue, tudo me leva
a crer que é por modéstia que não
se conhecem mais exemplos
destes. Posto isto, quando vejo
pessoas queixando-se das
burocracias, perdas de tempo,
papeladas para isto e para aquilo
para criarem o seu negociozinho
ou tratarem de algo com o Estado
ou autarquia, desculpem lá, mas
sou obrigado a dizer-lhes que o
defeito é deles pois não nasceram
para aquilo. O Simplex está aí ao
vosso dispor.
Jorge Morais, Porto

O Benfica conseguiu a primeira vitória nesta
edição da Liga dos Campeões, graças a um
golo tardio de Pizzi, que aproveitou com
inteligência a precipitação demasiado amadora do
guarda-redes do Lyon. O jogo parecia condenado a
um empate, mas Anthony Lopes quis colocar
rapidamente a bola em campo, Pizzi percebeu e
rematou de primeira para a baliza deserta, dando ao
Benfica um triunfo que talvez não merecesse face ao
que se passou no relvado. (Págs. 42/43) J.J.M.

A CP vai recuperar material circulante fora de
serviço para fazer face ao aumento da
procura suscitado pelo turismo, enquanto o
Estado não adquire os novos comboios para o que
lançou um concurso público. A recuperação dos
comboios implica também a reabertura das oficinas
da empresa, tal como anunciado pelo ministro das
Infra-estruturas na última legislatura. Tudo isto vai
permitir que a CP prescinda das automotoras
Pizzi Pedro Nuno Santos alugadas em Espanha. Elementar. (Pág. 24) A.C.

manuel.carvalho@publico.pt

E que tal um alçapão para o deputado do Chega?


E


ntre elevadas e solenes
preocupações sobre os
problemas do país e do Mundo, a
conferência de líderes das várias
bancadas de representantes da
nação entreteve-se a discutir na
semana passada uma questão decisiva
para o futuro do regime: o acesso do
deputado do Chega, André Ventura,
ao lugar que lhe foi reservado, um
modesto lugar na segunda Æla da
extrema-direita do hemiciclo. Uma
vez que, para ocupar a sua cadeira, o
deputado tem de incomodar alguns

(poucos) dos seus pares do CDS,
criou-se na conferência uma pequena
tempestade de ideias para resolver
tão ponderoso problema. Revelando
um agudo sentido prático, o
ecologista José Luís Ferreira avançou
até com a possibilidade de se serrar o
corrimão que protege a bancada para
abrir uma nova porta e garantir a
André Ventura uma passagem com a
dignidade que o estatuto parlamentar
merece e a tranquilidade dos
deputados exige.
Toda esta problemática sobre os
lugares que entreteve (e continua a
entreter) os nossos representantes
poderia ser apenas uma anedota nos
anais da vida democrática se não
revelasse uma óbvia combinação de
soberba e falta de inteligência
estratégica. Soberba porque, ao
revelar o incómodo sobre a passagem

a André Ventura, ou ao pedir a André
Ventura que se levante para que os
centristas ocupem os seus lugares, a
bancada do CDS mostra uma
presunção muito pouco democrática


  • ainda que Telmo Correia se
    empenhe a dizer que em causa não
    está “uma questão política”, mas
    apenas “uma questão prática”. Falta
    de inteligência estratégica porque
    esta birra só serve para que André
    Ventura se vitimize e encontre uma
    boa oportunidade para, ao seu estilo
    populista e demagógico, dizer que no
    parlamento há quem queira criar
    uma subclasse de deputados.
    Claro que, no Ænal do dia, esta
    banalidade acabará esquecida.
    Ninguém irá serrar um corrimão para
    satisfazer egos ou institucionalizar
    preconceitos de alguns deputados. A
    “questão prática” do CDS é de tal


modo irrelevante que morrerá como
outros milhões de palavras ou ideias
inúteis produzidas no parlamento –
até a justiÆcação de que, com um
deputado estranho entre a mão cheia
de deputados, o CDS deixará de ter
privacidade. Fica, no entanto, o sinal
de que a chegada de três novos eleitos
de três novos partidos vai forçar
novos hábitos, criar novos incómodos
e gerar novas rotinas. Em vez de
recusarem este novo normal com
argumentos ridículos, será melhor
que os deputados se preparem para
os novos combates contra o que
deputados como André Ventura
dizem e pensam, em vez de gastarem
tempo e energia em minudências
como a de saber quem se levanta
para dar lugar a quem no hemiciclo.

Manuel Carvalho
Editorial
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