Folha de São Paulo - 28.01.2020

(Chris Devlin) #1

aeee


Viagem fazengrenar namoroBolsonaro-Modi


Líderes trocam afagos, mas países aindaterãodediscutiraspectos darelação paraque acordosfechados deslanchem



  • Patrícia Campos Mello


DÉLISetemumnamoroque
pareceter engrenadoéodo
presidenteJairBolsonarocom
oprimeiro-ministroindiano,
NarendraModi.Noprimeiro
dia da viagem oficialàÍndia,
sábado ( 25 ),obrasileirodisse
que já estavacom saudades do
país. Ao fimdetrês dias,nes-
ta segunda ( 27 ), afirmou es-
tarmaravilhadocomaÍndia.
“Vocês moram em nossos
corações.Descobri aqui mui-
to maiscoisa emcomum en-
tre nós:alealdade, acultura,
avontade devencer”, disse,
em umfórum empresarial.
Os elogiosvãoalém do blá-
blá-blá de presidentes em vi-
sitaaoutros países.Depois do
ídolo máximo deBolsonaro,
oamericanoDonaldTrump,
Modiéumdos líderes mais ali-
nhadosaomanual nacionalis-
ta queguiaobolsonarismo.
Ambos estãosobataque
constantedamídia,são cha-
mados deracistaseintoleran-
teseapostamempropostas de
reformas paradesburocratizar
opaíseagradar aomercado.
Empresários que acompa-
nharamavisitadepertoafir-
mam que os dois líderes tive-
ramótima química, apesar da
barreiradalíngua.
“ModieBolsonaro são de di-
reita,têmumarelaçãocordial


comosEUA,nãoconcordam
comparte da mídia internaci-
onaledoméstica, são muito
dedicados àsreformaseque-
remcriarbom ambientepara
negócios”,diz Aravind Krish-
nan,diretor da Confederação
das IndústriasIndianas, maior
entidade empresarial do país.
EduardoBolsonaro, que in-
tegrouacomitiva dopresiden-
te,tambémvêmuitas seme-
lhanças entreoslíderes.
“Eles estãose entrosando
muito bem, são notoriamente
nacionalistas, defendem seus
países, sãoavessosaalguns
forosinternacionais”,disse.
Os indianos se desdobraram
paraagradarBolsonaro.Além
de espalharemcartazescom
afotodobrasileiroeamen-
sagemde“bem-vindo”,desta-
caramosprincipais ministros
parauma ofensivadecharme.
PiyushGoyal, ministrodo
ComércioedasFerrovias e
homemfortedogoverno,foi
cirúrgicoemseu afago. “Foi
aviagem mais produtivade
qualquer presidentedoBrasil
àÍndia”, disse, ao lado deBol-
sonaronofórumempresarial.
Osex-presidentes Lula, Dil-
maeFHCestiveram no país.
Modi,por suavez, chamou
Bolsonarodiversasvezesde
“amigo”eafirmou ser um or-
gulhotê-locomoconvidado
no Dia daRepública.

Houve, porém,protestos
contraoconvitepor partede
entidades progressistasepro-
dutores de açúcar,cujos sub-
sídiossãoalvode questiona-
mentodoBrasil na Organi-
zação Mundialdo Comércio.
Niranjan Hiranandani, pre-
sidentedaentidadeque orga-
nizouofórumempresarial no
qualBolsonarodiscursou, dis-
se queobrasileiroestácrian-
dootipo de paradigma que os
empresários querem.
“Você[Bolsonaro]éum
exemplo decomo criar cres-
cimentoeconômicoeinova-
ção”,afirmou Hiranandani,
que abriráumarepresentação

de sua associação noBrasil.
Enquantoempresárioseau-
toridadeseconômicasexal-
taramocaráterreformista,
ochanceler ErnestoAraújo,
como decostume,falou so-
breaidentidadeideológica.
“SobaliderançadeModi, a
sociedade indiana está se mo-
dernizando sem abrir mão de
suas tradições[...], semabra-
çarosdogmasfrios de quem
pregaumpós-nacionalismo,
quediz que as nações deve-
riamrenunciaraseus senti-
mentosesuas identidades
parapoder progredir”, disse.
“Justamenteocontrário: só
aquelesquesereconhecem
como nações podem prospe-
rarnomundo,essaéalição
da Índia,eessaéalição que
oBrasil tentadar ao mundo.”
Nareunião bilateralentreos
líderes, no sábado ( 25 ),Bolso-
naroeModifalaram sobreseu
nêmesis—obilionárioGeor-
geSoros, defensor decausas
progressistas. “O Sorosata-
counós dois”,relatouBolsona-
ro,mencionandoaconversa.
Ofilantropo anunciou que
investiráUS$ 1 bilhão (R$ 4 , 2
bilhões)emumarede de uni-
versidades paralutarcontra
“ditadores de agoraeemgesta-
ção”.Ainda criticouaatuação
do Brasilnaáreaambiental e
acusou osgovernos de China,
RússiaeÍndia de autoritários.

Bolsonaroelogiou Modi pe-
la “liberdadereligiosa”naÍn-
dia, nasemana em queopre-
miêfoicapa darevistaThe
Economistcomotítulo “Ín-
dia intolerante:como Modi
estácolocando em perigoa
maior democracia do mundo”.
“O presidenteelogiouali-
berdadereligiosa na Índia,
disse que se sentiuconfortá-
velaqui,apesardenão ser um
país de maioria cristã; ele visi-
touumtemplo[hindu]”,rela-
touEduardoBolsonaro.
Moditemsidomuitoataca-
do por medidasconsideradas
prejudiciaisaosmuçulmanos
no país dentrodeumprojeto
nacionalista hindu.
ParaErnesto, foidevido à
“convergênciadas ideiasevi-
sões”queos paísesfecharam
15 acordos bilaterais.Oprin-
cipaltemcomoobjetivodar
mais segurançajurídicapa-
ra incentivar investimentos.
Hoje, há US$ 6 bilhões (R$ 25
bilhões) em investimentos in-
dianos no Brasil,eUS$ 1 bilhão
de aportes brasileirosna Ín-
dia, segundoogoverno Modi.
Além darevisão de um acor-
do de eliminação de bitributa-
ção, válido desde 1992 ,outro
acordo importante permitea
executivoscontabilizarotem-
po trabalhadocomoexpatri-
ados em sua aposentadoria.
Tambémfoicelebrado um

mundo


A14 Terça-Feira,28DeJaneiroDe2 020


Opresidentebrasileiro, Jair Bolsonaro, posa em visitaaoTajMahal nestasegunda Alan Santos/Divulgação Presidência


memorandodeentendimen-
to paraaumentaraprodução
eouso de etanol no mercado
indiano,oque pode aliviar dis-
torçõescausadas pelos sub-
sídiosdogovernoaoaçúcar.
Aideiaéfazercomque mais
paísesproduzametanol,eo
produtosetornecommodity.
OBrasil, ao lado daAustrália
edaGuatemala, pediu aber-
tura de umainvestigaçãona
OMCparaquestionarsubsí-
dios dogoverno indiano aos
produtoresdeaçúcar.
Oassuntofoi debatido por
BolsonaroeModi,eestepe-
diuarevisão docontencioso
na OMC; obrasileiroafirmou
tersolicitadoaErnestoAraújo
paraverificarapossibilidade.
Noentanto,paraonamoro
virarcasamento, épreciso dis-
cutirarelação; será necessá-
rio mais paraorelacionamen-
to deslanchareatingirame-
ta de US$ 15 bilhões emcor-
rentedecomércio em 2022.
Em 2019 ,opaísexportou
US$ 2 , 76 bilhõeseimportou
US$ 4 , 25 bilhões.Asvendas
paraaÍndia são ainda mui-
to concentradas em petróleo
( 35 %das exportações de janei-
ro anovembrode 2019 ), óleo
de soja ( 10 %)eaçúcar ( 8 , 9 %).
Comocomparação,oBrasil
teveintercâmbiocomercial
de US$ 98 bilhõescomaChi-
na no anopassado.
Um dos obstáculoséoenor-
me protecionismo daÍndia,
quartolugar noranking de
paísescommaiorestarifas
médiasde importaçãoeum
dos que mais sofremcontes-
tações devidoasubsídiosàin-
dústriaeagricultura.
Naspalavras de uminte-
grantedaequipeeconômi-
ca,“pertodaÍndia,aEuro-
paéAdamSmithlândia”, dis-
se, ironizandoaliberdade de
mercado no país.
Nosetor industrial,osindia-
nostampoucosãotãoliberais
quantoModitentaaparentar.
Exigem de empresasestran-
geiras percentual mínimo de
conteúdo nacionaletransfe-
rência detecnologia parapo-
derem se instalar no país —al-
goqueaOMCcondena.
Tudo isso pode emperrar
um dos fronts mais promisso-
resdarelação:aexpansão do
acordo de preferênciastarifá-
rias entreMercosuleÍndia.
Há interesse dos indianos de
ampliaroacordo, mas não se
sabe quetipo de aberturaeles
concederiamaprodutosagrí-
colas, eosetor industrial bra-
sileiro já avisou que só aceita-
rianegociarredução detari-
fasseentrassem na discussão
os subsídiosdaÍndia.
Além do mais,aArgentina
precisatopar,oque estálon-
ge de ser provável, dadaamu-
dançadegoverno.
Por fim,Bolsonarocausou
ao menos umadecepçãoànoi-
va:não cumpriuapromessa de
isenção de visto para indianos,
frustrandoogoverno Modi —
várias autoridades menciona-
ramempúblicoodesejo de
queapromessaseconcretize.

EUA cobram rigidezdoBrasil contraimigração ilegal


BRASÍLIAUma autoridade da
administraçãoDonaldTrump
cobrou nestasegunda ( 27 )o
governoBolsonaropor ações
maisduras paradiminuir o
númerodeimigrantes irregu-
lares,comorigemnoBrasil,
quetentam entrar nos EUA.
Em umaconferênciatelefô-
nicacom jornalistas,KenCuc-
cinelli, númerodois doDHS
(DepartamentodeSeguran-
ça Interna), afirmouqueWa-
shingtongostaria queoBrasil
adotasse uma postura“mais
agressiva” notema.
“Há um grandenúmerode
ilegais[doBrasil] vindo aos Es-
tados Unidoseépreciso en-
cararisso.E[as autoridades
brasileiras] precisamcome-
çaralidarcomasituação de


forma mais agressivadoque
no passado”,disse Cuccinelli.
Aquantidade de brasilei-
rosapreendidos aotentar
atravessar deforma irregu-
larafronteira dos EUAbateu o
recordede 18 mil em 2019.
Oíndicedoano passado
representaumaumentode
600 %emrelação ao pico,
registrado em 2016 ,de 3. 252
brasileiros barrados.
Cuccinelliparticipouda
conferêncianestasegunda
parafalar sobremedidasado-
tadaspelagestãoTrump pa-
racombateraimigração ir-
regular na fronteiradopaís
comoMéxico.
Segundoaautoridade, as
ações dogoverno dos EUA
fizeramcomque as pessoas

da AméricaLatinasedessem
contadeque,atualmente,ten-
tarentrar ilegalmenteemter-
ritório americanoseconver-
teunuma viagem fútil.
Apesardacobrança,osub-
secretário interino do DHS
destacou queoatual governo
brasileirotem adotado medi-
daspositivaspara desencora-
jaraimigração irregular.
Ele citoucomoexemploa
expediçãodedocumentos
quefacilitamos processos de
deportação. Aadministração
Bolsonaroretomou umaprá-
ticainiciada nogoverno Mi-
chel Temer deconceder ates-
tados de nacionalidadeaimi-
grantes em processo de devo-
lução que não dispõem de um
documentodeviagemválido.

Como no Brasilexisteuma
regraque só permiteaemis-
são de identificação de via-
gemcom pedidoexpresso do
interessado,muitosbrasilei-
rosnos EUApreferiam não
solicitarodocumento, na es-
perançadequeomovimento
atrasasseadeportação.
Osconsulados brasileiros
passaramentãoaexpedir os
atestados mesmo semasoli-
citação do interessado.
Osubsecretário afirmou
ainda que, diantedoaumen-
todo númerodebrasileiros
apreendidos na fronteira, o
governoTrump estáavalian-
do medidas adicionais além
dasdeportações.
Cuccinelli citou, por
exemplo,queWashington

atualmente mantémconver-
sascomogoverno mexica-
no sobreoMPP (Protocolo
deProteção de Migrantes),
programa pelo qual imigran-
tesdetidostentando entrar
deforma ilegal nos EUApelo
território mexicanosão envi-
ados devoltaaopaís.
Eles entãoesperam no Mé-
xicoaanálisedas suas solici-
tações de asilo pelas autorida-
des americanasesósão auto-
rizadosaentrar nos EUAca-
so recebam luzverde de uma
cortedeimigração.
Aocomentar sobreascon-
versascomoMéxicosobreo
MPP,Cuccinelliindicou que
brasileiros podem passar a
receberomesmo tratamen-
to.RicardoDella Coletta

Rússiaexpulsa


repórter acusado


de espionagem


MOSCOU|REUTERSARússia
expulsouumjornalista ja-
ponêsportentar obterin-
formações secretasrelacio-
nadasàcapacidade militar
de Moscou no Extremo Ori-
ente, informou nestasegun-
da ( 27 )aagência estatalRIA.
Ojornalista, de nome não
divulgado,teve 72 horas pa-
radeixaraRússia.Ele foi
detido em 25 de dezembro.
Segundoaagência, a
chancelariaconvocou um
oficial daembaixada japo-
nesa pararegistrar um pro-
testodiplomáticooficial.
Asrelações entreTóquio
eMoscou sãotensas devido
auma antigadisputaterri-
torialpor ilhas noPacífico.


Eles estão se
entrosando
muitobem, são
notoriamente
nacionalistas,
defendem seus
países, sãoavessos
aalgunsforos
internacionais

Eduardo Bolsonaro
deputadoefilho do presidente,
sobrearelação delecomModi
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