Folha de São Paulo - 28.01.2020

(Chris Devlin) #1

aeee


opinião


A2 Terça-Feira,28DeJaneiroDe2 020

UMJORNALASERVIÇO DO BRASIL


a


Publicado desde 1921–Propriedade da EmpresaFolha da Manhã S.A.

PresidenteLuizFrias
diretorderedaçãoSérgio Dávila
suPerintendentesAntonio ManuelTeixeiraMendeseJudith Brito
Conselho editorialRogério CezardeCerqueiraLeite,
Marcelo Coelho,Ana Estela de SousaPinto, Cláudia Collucci,
Hélio Schwartsman, Heloísa Helvécia, MônicaBergamo,
Patrícia Campos Mello,Suzana Singer,Vinicius Mota,
AntonioManuelTeixeiraMendes, LuizFriaseSérgio Dávila(secretário)
diretoria-exeCutivaMarcelo Benez(comercial),Marcelo Machado
Gonçalves(financeiro)eEduardo Alcaro(planejamentoenovos negócios)

editoriais@grupofolha.com.br

editoriais


Mais um fiasco


Lula sincerão


Oque sobraemempáfiaaAbra-
hamWeintraub,nas redes sociais,
lhefaltaemcompetênciaàfrente
do MinistériodaEducação. Sob sua
administração,oMECtemsidofon-
te inesgotáveldemás notícias pa-
ra oensinoeapesquisa no Brasil.
Considere-seaCoordenação de
AperfeiçoamentodePessoal de Ní-
velSuperior(Capes).Fundamen-
talparaapós-graduaçãoeafor-
mação de professores,oórgãoes-
tá nocentro deuma polêmicapor-
queWeintraubescolheu paradiri-
gi-la um adeptodocriacionismo.
Ressalve-se queocurrículo aca-
dêmicodeBeneditoAguiar, ex-rei-
tordaUniversidadePresbiteriana
Mackenzie,parece adequado para
afunção.Numa instituiçãocon-
fessionalcomoaque dirigiu, seria
aceitáveloensinoda doutrinare-
ligiosa segundoaqualtodasases-
péciessão obradeDeus, nãotanto
da seleçãonatural neodarwiniana.
Aguiar,entretanto,subscreve
acorrentedodesign inteligente,
ou criacionismo “científico”,coi-
sa quenão é.Nessaforma de pen-
sar,estruturascomplexas dos or-
ganismos,como os olhos,teriam
de serprojetodeuma inteligência
superior,enão frutodoacaso (co-
moéseuhábitocaricaturarateo-
ria de Charles Darwin aperfeiço-
adacomoadventodagenética).
Amerapossibilidade de que o
presidentedaCapescarreierecur-
sos da instituição parafomentar
estudosdeinspiraçãoreligiosa e

incompatíveiscomaciênciacon-
temporânea já seria motivopara
nãooindicar aocargo.
Omau passo naCapes compor-
ta riscos para ofuturo, mas no pre-
senteagestão deWeintraub já pro-
duziuprejuízoconcretoparami-
lhões de estudantescomonaufrá-
gio logísticodoúltimo Enem (Exa-
meNacional do EnsinoMédio).
Erros em milhares de notas puse-
ramsob suspeiçãoaprova.Wein-
traub, comseu arrojo irresponsá-
vel, não interrompeuaseleçãopara
universidadesfederais que astoma
por base. Contaminadopelajudi-
cialização,oprocessomantémem
suspense legiões de jovens num
momentodecisivodesuas vidas.
OMECagecomosetudoestives-
se sobcontrole,enão está.Deixa
semrespostacandidatosque ques-
tionamoresultadodesuasavali-
açõesaomesmotempoemque
oministro intercedepelafilha de
um apoiador deBolsonaroque lhe
dirigiu um apelo porrede social.
Weintraub trocaasmãos pelos
pés em quasetudo quetoca.Na
contramão da internacionalização
da pesquisa, limitou viagens nas
universidadesfederais.Deixou pa-
rado R$ 1 bilhãoaqueoMECfaria
jusdodinheiroretomado pela La-
va Jato.Elevouopiso nacionalno
ensino básicosem levaremconta
apericlitantesituação orçamentá-
riadeestados emunicípios.
Atéaqui,Jair Bolsonarosópro-
duziu fiascos no MEC. Atéquando?

Governantes nãogostam de im-
prensa livre.Teraadministração
constantementeexpostaarepor-
tagensque iluminamaspectosin-
convenientesaogrupo no poder
nãoéalgoque lhesdêprazer. Éum
fatordeincômodoque, nasdemo-
cracias, são obrigadosatolerar.
Luiz Inácio Lula da Silvanãofoi
exceçãoàregraenquantoocupouo
Palácio do Planalto. Restringiu en-
trevistascoletivas, deupreferência,
inclusivefinanceira, ao espectro
deveículoschapa-brancaemtor-
nodo petismoeflertoucom dis-
positivosparacontrolaramídia.
Ocuriosofoiter embarcado ago-
ra,naoposição,numa espécie de
flashback aostempos em queche-
fiava oExecutivo. Em entrevistaao
UOL, endossou partedaofensiva
queopresidenteJairBolsonarotem
capitaneadocontraaimprensa.
Lulanão apenasdeu razão aoatu-
al mandatáriocomo agiuàmanei-
ra dele aoatropelarosfatos eacu-
saraTVGlobo de nãoterdadoco-
berturaàsmensagens obtidas pe-
lo TheIntercept Brasil que questi-
onamaparcialidadedaLava Jato.
Trata-se de errocrasso de infor-
mação,poisaemissora veiculoure-
portagens sobreotema. Também
aocontrário do que disse Lula, a
Globo noticiouadenúnciaestapa-
fúrdia de um procuradorcontrao

fundador do site, Glenn Greenwald
—acusação ofensivaaoexercício
do jornalismo que deveria ser de
prontorejeitada peloJudiciário.
Averborragiafora de órbitaede
lugar históricodoex-presidente
prosseguiucomcomparações en-
treaatitude da emissoraeonazis-
moecommais elogiosaBolsona-
ro porsupostamenteestar,com o
empregodasredes sociais,“pro-
vando queépossívelfazernotícia
sem precisar dos jornais”.
“Fazer notícia”, nas palavrascon-
fusas de Lula,equivaleatransmitir
avisão adocicadaeautoindulgen-
te do situacionismo sobreareali-
dade semocrivocríticodojorna-
lismo profissional.Nãodifere da
propaganda,maséosonho aca-
lentado portodogovernante,de
falar sem sercontraditado.
Asensação que ficaéadeque Lu-
la gostaria devoltar aocargoeva-
ler-se deferramentasdecomuni-
caçãodireta,ataqueeboicoteàim-
prensa desenvolvidas porBolsona-
ro.Aintenção de alvejarumarede
deTVtambémécompartilhada.
Numrompantedesinceridade,
oprincipallíder da oposiçãore-
vela não apenasoqueodistancia,
mastambémoqueoaproxima do
atual presidente. Lula sincerão,pa-
ra usar agíria dos jovens, não dei-
xa de esclarecer odebate público.

apósfalha no enem,MeCamplia erroseescolhe


militantedodesigninteligenteparageriraCapes


SãoPauloDepois de uma brevees-
cala na Alemanha nazista,ogover-
noBolsonaroagoranoslevapara o
século 13 .Comooleitorjádeveter
adivinhado,falo da nomeação deBe-
nedito Guimarães AguiarNeto para
apresidência da Capes,oórgãores-
ponsávelpela pós-graduação no país.
AguiarNetoéevangélico. Atéaí,
nenhum problema. Existemexce-
lentes cientistas religiosos. Umbom
exemploéodogeneticista Francis
Collins,cristão devotoque dirigiu
oProjetoGenoma Humanoeago-
racomandaoNIH,aagência dos
EUAresponsávelpela pesquisa bio-
médica.Collins,apesar de játeres-
critoumlivroreligioso, nãopermi-
te que suasconvicções pessoais in-
terfiram em seu trabalho científico.
AguiarNeto,queéengenheiroele-
tricista,não segueoexemplo de Col-
lins. Ele defende queodesign inte-
ligente(DI) seja ensinado nas esco-
las “comocontrapontoàteoriada
evolução”.Osproponentes do DI,va-
le recordar,tentamrefutarodarwi-
nismoafirmando queavidaécom-
plexademais parater surgido por

acaso.Como“prova”,apresentam
modelosmatemáticos alimentados
comparâmetros escolhidos poreles
mesmosedizem quecertas estru-
turascomooolho ouoflagelo bac-
teriano são “irredutivelmentecom-
plexas”,istoé,teriam uma organiza-
çãotão intricada quesópoderiam
ser obradeumprojetistainteligen-
te.ODIfracassanamaioria dos cri-
térios de demarcação do métodoci-
entífico.Nãoédifícilveraquiavolta
dosvelhos criacionistas, masbran-
dindoacalculadora emvezdaBíblia.
Ex-reitordaUniversidadePres-
biteriana Mackenzie, AguiarNeto
criouali umnúcleodeDI. Faztan-
tosentido quantofundar um de-
partamentodealquimiaouacáte-
dradeastrologia,mas oMackenzie
éuma instituição privadaeconfessi-
onal. Se quer passarridículo peran-
te acomunidade científica,éproble-
ma seu.Já aperspectiva deopoder
públicoimpingiràgarotada criaci-
onismotravestido de ciência esbar-
ra em gravesquestões éticasecons-
titucionais.
helio@uol.com.br

BRaSÍlIaAmáquina públicaéforma-
da portalengrenagemcomplexa e
impermeávelasolavancos que, di-
gamos, mesmo que amanhã assu-
maacadeirapresidencialoMari-
nheiroPopeye,opaíscontinuaráa
sua marcha.Ocorrequetudotemli-
mite. Lentamente,aincompetência
patente,atotalfaltadeideiasobre
oquefazer, obrancaleonismo pio-
rado pela prepotência,opelotão da
ignorância travestido deexércitoda
salvação,enfim,tudo isso,mistura-
do,haveria decobraradevidafatura.
Jair Bolsonaro, quegostadedar
voltinhas em Brasíliaparacomer
pastéis, visitarfeiras, bem que po-
deriaaproveitar algum desses mo-
mentosemque nãotem, ou não
sabe,oquefazer—eeles parecem
sermuitos—edar um pulinho nas
agênciasdoINSS. Lá nãovendem
pastéis, masfoiemuma delas que
orepórterBernardoCaram encon-
trouotrabalhador ruralPauloNo-
vais deJesus, que disse aguardar há
três mesesaliberação deumauxílio-
doença.Devidoaisso, temfeitoin-
cursões na mendicância.“Tiveque

perderavergonhadepedir comida
paraafamília.”Aotodo, 1 , 3 milhão
de brasileirosestão em situação si-
milar,norol de vítimas de apagões
que pipocam aqui eali na máquina
públicaquePauloGuedes quer pôr
abaixoparaobemgeraldanação.
Além de ouvirahistória dessagen-
te,Bolsonaropoderia aproveitar a
oportunidadeeexplicaraelesoque
não deucertonasua promessa de
só levarosmelhores, os maiscom-
petentes,paraasuaequipe. Guedes
poderiaajudá-loaresponder essa.
Além docenáriodedeus-daráno
INSS, os melhores estãoàfrenteda
balbúrdia que inferniza estudan-
tesesucateiaaeducação,órgãos do
meio ambienteeoprograma deca-
sas populares,queretoma as filas e
diminuiacoberturadoBolsaFamí-
lia, quegerapanestécnicas as mais
variadaseque trocapolíticas pú-
blicas baseadas emfatoseciência
porbênçãos docaderno da tia-avó.
Por maisresilientequesejaesse
trambolho chamadomáquina pú-
blica, não há Titanic que suporte por
muitotempotantacompetência.

RIodeJaneIRoCompompa, circuns-
tânciaemuitomarketing,aprefeitu-
ra anunciou no início de janeiroum
Carnaval de 50 dias,odobrodoca-
lendário de 2019 .Aideia eraaprovei-
tar aestruturamontada paraoRé-
veilloneconvencerturistasaficar
na cidade por maistempo,aumen-
tando de 1 , 7 milhão para 1 , 9 milhão
onúmerodevisitantes.Dessa ma-
neira,tentava-se impediraexpan-
são dafestaemoutrascapitais,co-
moSãoPauloeBelo Horizonte, que,
mesmolonge da praia, estão deixan-
dooRio pobredeconfete, serpenti-
naepurpurina.
Erasóolhar paraacaradeentusi-
asmo de Marcello Crivella, ao anun-
ciaranovidade, paraperceber que
não iria darcerto. Mas nem os mais
pessimistas poderiam prever que o
negócio não duraria nem uma ho-
ra,tempo que levouparaoshowda
BandaFavorita, na aberturadoCar-
navaloficial,fosse interrompido.
Umaconfusão só nasareiasdeCo-
pacabana, querecebiammais de 300
mil pessoas. Correria, furto decelu-

laresecarteiras, bombas degásla-
crimogêneo, pedrasegarrafasati-
radas por ambulantes —imagine a
quantidade deles numa cidade que
temamaiortaxa de desemprego
do Brasil—contrapoliciaiseguar-
dasmunicipais.Nodiaseguintepo-
diamservistasasmanchas de san-
guenofamosocalçadão.
Acada anosurgemmais blocos de
famosos,que sãoaantítese da es-
pontaneidadedos blocos de bairros.
Estesreúnem amigoscomointuito
de se divertir,enquantoaqueles se
regempela lógicadolucro. Porque
Crivella, da noiteparaodia, passou
aincentivarafesta? Porque esteano
temeleiçãoesopraram-lhe ao ouvi-
do—eenfimele ouviu— queoCar-
navalpoderámovimentaraecono-
miado Rioemmais de R$ 4 bilhões.
Atéquem nãogostadafoliasabe
queostranstornos dos desfilestêm
menosaver comosblocos tradici-
onais, algunscommais de 50 anos
defarraeexperiência, do quecom
afaltadeestruturadosetor público.
Ao prefeito, faltaintimidade.

Devoltaaoséculo 13


Sinais do apagão


Pobredeconfete



  • Hélio Schwartsman


  • Ranier Bragon




  • AlvaroCostaeSilva




Em suacolunanaFolha,nase-
manapassada, AndersonFran-
ça criticou de maneiracontun-
denteartistas populares que
nãotomaram posiçãocontra
oex-secretário da Cultura Ro-
bertoAlvim.
Oartigoressalvavaque artis-
tascomo Zélia Duncan, Marce-
lo D 2 ePedro Cardoso tinham
corajosamentemarcado po-
sição,mas artistas de origem
pobre,como Anitta,Maiarae
MaraisaeWhindersson Nu-
nes, tinham secalado,talvez
commedodeperdercontra-
tosdepublicidade. França foi
ainda maislongeeincluiu uma
ilustração deMaiaraeMarai-
sa comuma braçadeiranazis-
ta,sugerindo que essesartistas
não eram apenas inconsequen-
tescomo tinhamefetivamente
aderidoàbarbárie. Como diz
oditado,quem secala contra
onazismotambéménazista.
Oartigoteveenormereper-
cussão,commaisde 16 mil in-
terações noFacebook. Fãsdos
artistascriticadosreagiramin-
dignados.Ailustração de Maia-
ra eMaraisafoiretirada do site
daFolha,acompanhadadeum
pedido de desculpas do jornal.
Noscírculos de esquerda,
porém,oartigofoi celebrado
eamplamentecompartilhado.
Essareação mereceser anali-
sadaporqueemboraospro-
gressistasreconheçamagra-
vidade do momento, parecem
desconheceroprocesso que le-
vouaté ele.
Bolsonaronãofoieleitopor-
quecompartilhou notíciasfal-
sas nem porqueteve oapoio de
empresários dovarejo.Bolso-
naro foieleito porque suacan-
didatura articulou doismovi-
mentos da sociedade brasilei-
ra,agrande insatisfação anti-
corrupção,originalmentevol-
tadacontraaesquerda,eocon-
servadorismoreligioso que via
nofeminismoenomovimen-
to LGBTuma ameaça àfamília
tradicional.
Essa articulação sófoipossí-
velporque esses dois discursos
têmemcomum umcaráteran-
ti-elitista:contrauma elitepo-
líticaque estariasaqueando o
Estadoecontra uma elitecul-
turalarroganteeperversa que
tentaria destruirafamíliatra-
dicional.
OartigodeFrançaparece
movido pela justaindignação
contraosilêncioconvenien-
te de grandesartistas que não
queremtomar partido porque
têmmedodeperder audiên-
cia num país polarizado.Mas
ao traçar uma distinção entre
os artistas engajadosepoliti-
zados da classemédia eumsu-
postoprotofascismo dos artis-
taspopulares,odiscurso invo-
luntariamenteconfirmaape-
cha de elitista queBolsonaro
vemtentandocolar na esquer-
da progressista.
Quandomais urgentemente
necessitamosconvocar os ar-
tistaspopulares paraseunirem
numa cruzadacontraessego-
verno autoritárioeconserva-
dor,tudooqueconseguimos
fazeréagredi-loseempurrá-
loscomforça paraocampo do
adversário.
po.ortellado@gmail.com

Gritaria


elitista



  • Pablo Ortellado
    Professor do curso degestão de políticas
    públicas da USP,édoutor em filosofia.
    escreve àsterças


Laerte

em entrevista,ex-mandatário petistarevela


tambémoqueoaproxima de Jair Bolsonaro

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