Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1
11 JUNHO 2020 VISÃO 9

parada e desbobinaram a receita. Explicaram, primei-
ro, que o vírus era invisível. O homem acenou com a
cabeça, em vigoroso assentimento. Era a sua especiali-
dade, as criaturas invisíveis. E sorriu, confiante. Estava,
afinal, entre colegas. Porque não havia competência
maior: os bichos que ele caçava surgiam na véspe-
ra como entidades sem corpo. Até o elefante aparecia
mais pequeno do que o nada. São espertos os bichos
deste mundo. Não se deixam ficar por um único tama-
nho, por uma única vida.
Educadamente, escutou as prédicas dos visitantes,
aguardando o seu momento. Pediu as mais variadas
licenças, porque havia ali gente de idade e géneros bem
diversos. E apresentou, então, o seu
método para vencer os seres que
fingem ser invisíveis. Esse método
tinha um nome: o sonho. Devia dizer
no plural: a sua produção onírica era,
na verdade, bem diversa. Os sonhos
eram o laboratório de Tsatso. Eram
o seu tubo de ensaio, o seu micros-
cópio privado, a sua cabine de fluxo
laminar. Os visitantes que estivessem
à vontade para lhe pedir toda a co-
laboração. Podiam encomendar-lhe
um sonho para ele descobrir por
onde andava escondido o tal vírus.



  • Não sou como os outros. Eu
    penso por sonhos.
    Em silêncio, a brigada da saú-
    de concordou que o melhor seria
    centrarem-se no essencial. Dedica-
    ram-se, a seguir, a explanar sobre
    os mecanismos de transmissão do
    vírus. A transmissão aérea, as go-
    tículas, os aerossóis. Tudo isso foi
    comentado. Lauro Tsatso encolheu
    os ombros.

  • Fiquem descansados – disse
    ele –, eu raramente respiro. Durmo
    longe da minha mulher exatamente
    por isso. Ela farta-se de respirar. É
    de dia, é de noite, ela não se cansa.
    Complacentes, os da saúde sor-
    riram: a reação do caçador não re-
    sultava de qualquer intenção irónica.
    Havia apenas um erro de tradução.
    Mudaram o tradutor e, de uma as-
    sentada, falaram de tudo: do vírus, da pandemia, dos as-
    sintomáticos, do achatamento da curva, do retardar do
    pico. Usaram todos estes termos em português. As mãos
    do tradutor, em apressado desespero, tentavam com-
    pensar a complexidade do discurso. Os olhos de Tsatso
    eram intermitentes faróis perdidos entre as curvas e as
    contracurvas do discurso.
    Um dos brigadistas explicou, numa espécie de re-
    presentação teatral, a necessidade do distanciamento
    social. O próprio tradutor mostrou-se renitente. Tinham
    a certeza da relevância daquela instrução ali, no meio do
    deserto?


A recomendação seguinte foi mais concisa: o ho-
mem devia ficar em casa. E o caçador disse: – Mas eu
já estou em casa. – E apontou a paisagem em volta. De
novo, os da Saúde sorriram, complacentes. Uma das
senhoras que trazia uns sapatos de tacão alto aprovei-
tou para esmiuçar as instruções: sempre que chegas-
se do trabalho, ele devia deixar os sapatos à porta da
residência. E ela até exemplificou, apoiando-se no
ombro de Tsatso para erguer a perna e libertar-se do
calçado. O caçador também se ergueu para executar
uma vénia e inquirir, com o devido respeito: – Vão-me
dar quando? – Os visitantes não entenderam. – Os
sapatos, é para agora? – voltou a inquirir o caçador, já
com o pé erguido para lhe tirarem
as medidas.
Por fim, anunciaram o objetivo
final das medidas de prevenção.
Tratava-se de aliviar a sobrecarga
nos hospitais, Tsatso voltou a inter-
romper. Essa era uma das criaturas
mais invisíveis naquela região: o
hospital. Mesmo nos sonhos, ele
não vislumbrava nenhum posto de
saúde. O mais próximo ficava para
além do alcance dos melhores dos
sonhadores.
E confessou: já antes tinha
chegado uma outra brigada com
ordens de fechar a escola. Fechar é
um modo de dizer. Como se pode
fechar o que não tem paredes nem
porta? Agora, por baixo do fron-
doso cajueiro restavam os bancos
corridos, uma tábua pintada de
preto e pedaços de mandioca seca
que faziam de giz. Tudo desola-
do, vazio e solitário. Mas é assim,
a vida é que manda. A escola é
como o mundo dos vírus. Pare-
ce vazia. Mas há quem a povoas-
se. Quem sabe, daqui a uns dois
meses, quando a reabrirem já as
suas netas não voltem às aulas.
Lugar de rapariga é em casa. Elas,
sim, iriam ficar em casa. Agora e
sempre. Que é para não apanhar
a doença de sonhar. Nem com
coisas visíveis e, menos ainda, com
coisas invisíveis.
Os brigadistas juntaram numa mala a parafernália de
materiais de educação: cartazes, panfletos, marionetas
e um megafone. Foram caminhando com dificuldade,
arrastando os pés na areia solta. E ainda escutaram os
gritos do caçador. À distância, os braços erguidos, o ho-
mem clamava na sua língua materna. Observando me-
lhor, ele sustentava um par de botas na ponta dos dedos.
O tradutor apurou os ouvidos, encheu o rosto com um
largo sorriso e explicou aos colegas:


  • O homem está a perguntar se, desta vez, não lhe
    deixamos um frasquinho com álcool-gel. visao@visao.pt


Mudaram o tradutor
e, de uma assentada,
falaram de tudo: do
vírus, da pandemia,
dos assintomáticos,
do achatamento da
curva, do retardar
do pico. Usaram
todos estes termos
em português.
As mãos do tradutor,
em apressado
desespero, tentavam
compensar a
complexidade do
discurso. Os olhos
de Tsatso eram
intermitentes faróis
perdidos entre
as curvas e as
contracurvas
do discurso
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