Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1

10 VISÃO 11 JUNHO 2020


OPINIÃO
HISTÓRIAS
DA CAPA

1


3


2


Ninguém diga


que não foi avisado


O


verão de 2020 deverá bater todos
os recordes de calor, avisou a Or-
ganização Meteorológica Mundial.
As populações do Sul da Europa,
em particular, devem preparar-se
para enfrentar, nos próximos me-
ses, “temperaturas globalmente su-
periores ao normal”. Com base nas
previsões da meteorologia e do histórico de
fogos florestais registado nos primeiros me-
ses do ano, a Comissão Europeia também
deixou um alerta: vamos entrar numa época
de risco alto de incêndios, prevendo-se que
a quantidade de casos e de área ardida seja
superior à média ocorrida nos últimos dez
a doze anos. A agência meteorológica dos
EUA prevê que, por causa da temperatura
acima da média que se regista atualmente
no oceano Atlântico, vão ocorrer, em princí-
pio, muito mais furacões, alguns de grande
intensidade, nos próximos meses.
E isto também deve ser
um aviso para nós, já que,
como sabemos, nos últi-
mos anos, alguns ciclones
começaram a ter a ten-
dência de se desviar da sua
rota habitual e passaram a
atingir também Portugal
(como o Leslie, em 2018, e
o Lorenzo, em 2019).
Os avisos foram feitos
e, em particular neste
ano de 2020, ninguém os pode considerar
demasiado alarmistas e sem justificação
científica. Se algo devemos aprender com
esta pandemia da Covid-19 é a necessidade
de escutarmos os cientistas, acreditarmos
nas medições rigorosas, aceitarmos que
não controlamos o planeta e que temos de
saber, por antecipação, como nos podemos
adaptar às mudanças há muito previstas,
bem como às ameaças que exigem respostas
coordenadas à escala global. Os avisos são
sérios e repetidos, nos últimos tempos, por
todos os organismos que, de facto, detêm
o saber e o conhecimento sobre o aqueci-
mento global. Há uma tendência evidente,
alicerçada em registos captados um pouco
por todo o mundo: onze dos últimos doze
anos foram os mais quentes alguma vez re-
gistados. Como sublinhou Carlo Buontem-
po, diretor do Serviço de Monitorização das
Alterações Climáticas do Copernicus, “esta

ocorrência não é sinal de uma flutuação
estatística, mas sim a prova de que o clima
está mesmo a aquecer”. Só na Europa, por
exemplo, a temperatura média subiu, na
última década, mais 1,3 graus face ao que se
registava na década de 1970.
Apesar da evidência repetida do au-
mento das temperaturas e do crescimento
dos fenómenos extremos, os avisos sobre a
ameaça climática parecem ser tão escutados
como foram os alertas de que o mundo se
devia preparar para a pandemia de um novo
coronavírus. Este silêncio tem sido acom-
panhado, nos últimos meses, pelas “boas
notícias” de que, afinal, graças às quaren-
tenas e à paragem forçada de milhares de
indústrias em todo o mundo, o planeta até
começou a registar melhoras. Lançaram-se
“aleluias”, porque tinha baixado a poluição
atmosférica, gritaram-se “hurras” pela di-
minuição da emissão de gases com efeito de
estufa, abriram-se sorrisos
com a notícia de que a vida
selvagem começava, em
alguns casos, a invadir am-
bientes citadinos e que até
os oceanos pareciam mais
limpos, já que o tráfego de
navios de cruzeiro, petrolei-
ros e cargueiros ficou quase
paralisado. Pois, mas, apesar
de todas essas melhorias
e da redução da emissão
de gases, os últimos dados divulgados pela
credível agência americana dos Oceanos
e Atmosfera (conhecida pela sigla NOAA)
são esclarecedores: o nível de dióxido de
carbono na atmosfera nunca foi tão alto
como agora. Segundo a agência, nunca, nos
últimos três milhões de anos, a concentra-
ção dos gases responsáveis pelo efeito de
estufa foi tão alta como a que foi medida em
maio deste ano. É bom que este aviso não
seja esquecido. E que se perceba que, apesar
de podermos ter diminuído a atividade in-
dustrial, nunca parámos de emitir carbono
para a atmosfera. E como o que já lá estava
não desapareceu, a soma aumentou.
Os sinais são claros: isto vai continuar a
aquecer e os perigos estão à vista. No imedia-
to, por exemplo, além da distância social nas
praias, é melhor que comecemos a preocu-
par-nos, a sério, com as florestas. Ninguém
diga que não foi avisado... rguedes@visao.pt

Além da distância
social nas praias,
é melhor que
comecemos a
preocupar-nos,
a sério, com
as florestas

POR RUI TAVARES GUEDES / Diretor-executivo

Este é um belo
retrato de António
Ferro e dava, claro,
uma boa capa. Mas
é também uma
foto já muito vista...

Eis outra hipótese:
Ferro no seu am-
biente de trabalho,
a agir “na sombra”
do regime. Mas o
resultado era um
pouco confuso

Esta é uma foto
surpreendente,
capaz de projetar
para o leitor o
estilo de uma per-
sonagem “maior
do que a vida”
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