Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1
11 JUNHO 2020 VISÃO 13

O

Olhamos, mas não vemos. Umas vezes
porque o objeto é demasiado pequeno,
outras por ser demasiado grande, e
outras ainda porque decidimos não
ver. Independentemente da razão,
acabamos por ter uma visão parcial
da realidade. Em entrevista exclusiva,
a canadiana Ziya Tong, 48 anos,
comunicadora de Ciência e uma das
caras mais conhecidas do Discovery
Channel, diz querer abrir-nos os olhos
e mostrar-nos outras perspetivas, com
o seu livro Tudo o Que Não Vemos
(Lua de Papel, 333 págs., €17,90), que
já está nas livrarias.
A sua mensagem central é a de que
vivemos numa “bolha da realidade”.
Porquê essa expressão?
Quando habitamos uma bolha,
estamos a habitar uma realidade
ficcional. Há um mundo muito
maior, que existe fora da bolha. Um
pouco como as bolhas dos mercados
financeiros e as bolhas imobiliárias: se
vivermos na ilusão, podemos ficar em
apuros, porque esse mundo mais vasto
pode destruir a nossa bolha.
Como essa bolha afeta o nosso dia
a dia?
São modos de ver o mundo que não
revelam a realidade. Julgamos ter uma
visão exata do mundo quando, na
verdade, temos uma visão distorcida.
Quando temos muitas destas bolhas
juntas na sociedade, acabamos com os
problemas caóticos que vemos à nossa
volta.
Como as alterações climáticas?
Sim, e a desflorestação, as extinções
em massa, a acidificação dos oceanos.
Todas estas coisas que acontecem à
nossa volta são invisíveis a olho nu – e,
como não estamos a prestar atenção,
ficam fora de controlo.
O que nós temos a ganhar, como
espécie mas também como
indivíduos, em apreender outros
pontos de vista, em ver aquilo
que habitualmente não vemos?
Ganhamos mais do que uma


sensação de assombro? As nossas
vidas mudam de alguma forma?
Há uma sensação de assombro, de
encantamento, sim, mas também
há coisas muito práticas. Sem as
revelações de Einstein, sem aquela
sua forma de ver o mundo que o
levou à Teoria da Relatividade, não
teríamos sistemas GPS. Podemos não
ter a noção concreta de como o tempo
funciona, que depende da nossa
velocidade e da distância à Terra, mas,
se Einstein não tivesse conseguido
fazê-lo, os nossos GPS ficariam
desregulados dez quilómetros por dia.
Fechamos os olhos
voluntariamente ao que nos faz
sentir desconfortáveis? É um
mecanismo consciente?
Há várias razões. Algumas são pa-
las voluntárias. “O que se passa nas
quintas de onde vem a nossa carne?
Vou fingir que não sei.” Mas há outras
coisas que simplesmente não con-
seguimos ver. Não conseguimos ver
buracos negros nem os micróbios que
nos rodeiam, que estão até nos nossos
corpos. Há coisas que não conse-
guimos ver devido à nossa biologia e
coisas que não vemos porque esco-
lhemos não ver. E há ainda as que não
vemos porque fomos culturalmente
moldados para vê-las de uma certa
maneira, a que eu chamo pontos cegos
civilizacionais: formas de observar o
mundo que herdámos, transmitidas de
geração para geração.
É um mundo cruel. Fome, morte
e sofrimento... Não é melhor não
“vermos” para conseguirmos viver
sem sentir constantemente as dores
do mundo?
Mas também há coisas para ver que
são maravilhosas, que me inspiraram
a escrever o livro e que me fizeram
divulgadora de Ciência, durante
17 anos. Todos os dias falava com
cientistas de diferentes campos: alguns
estudavam animais; outros, o Espaço;
outros, a vida marinha, e não viam
só coisas horríveis. Por exemplo, no
livro, falo de como um escaravelho-
do-esterco usa a Via Láctea para se
orientar ou de como os cães-da-
pradaria têm a sua própria língua.
Nota-se que ficou maravilhada
quando descobriu que os cães-da-
pradaria têm latidos diferenciados
para anunciar a chegada de
diferentes predadores.
I lost my shit! [Fiquei abismada!]
Adorei! Este é um livro sobre encanto
e assombro, de como ver o mundo,

quase como em Matrix: se destapar o
véu, acordo. É mais isso do que revelar
o lado lúgubre.
A cegueira que, por exemplo, nos
leva a ignorar que os animais
são seres sencientes não será um
mecanismo de defesa evolutivo?
Se pensassem demasiado no
sofrimento de um animal antes de
matá-lo, os homens das cavernas
morriam de fome...
Se olharmos para as comunidades das
Primeiras Nações [povos indígenas
do Canadá], vemos que houve sempre
um sentido de reverência para com
os animais e o seu nível de senciência,
e no entanto essas pessoas caçavam
para sobreviver. É um tratamento dos
animais muito diferente deste sistema
mecanicista, industrial que nós temos.
Hoje, vemos os animais como produ-
tos. Há milhares de anos, tivemos filó-
sofos e budistas a reconhecerem a sen-
ciência de outras criaturas, e também a
unidade do mundo, o facto de estar-
mos todos interligados, e é isso que a
Ciência moderna também começa a
ver – esta interligação. Por exemplo, os
maoris, da Nova Zelândia, sempre tive-
ram a noção de que estavam ligados ao
mundo, no sentido em que o mundo
fazia parte da química dos seus corpos.
A água dos rios era inseparável deles
próprios. Essa é uma forma diferente
de pensar. Durante muito tempo, o
modo de pensar era religioso: tudo
partia de Deus. Depois veio a Ciência
e tudo passou a ser muito mecanicista.
Agora é a era da economia, em que
vemos tudo, até os nossos filhos, como
investimentos. Há maneiras distintas
de encarar o mundo, e agora precisa-
mos de outra. Acreditamos que somos
donos do mundo, mas precisamos de
outro modo de pensar que não passe
por este excecionalismo humano, em
que somos o centro do universo e
dominamos tudo. A ideia de que po-
demos comprar e vender vida é, para
mim, absurda.
Em que momento da nossa
existência perdemos essa conexão
com o mundo que nos rodeia?
Quando começámos a viver nestas
bolhas de habitat que são as cidades.
Durante a pandemia, ficámos senta-
dos em casa e as coisas chegam-nos
na mesma. Essa é outra bolha que
não vemos, a do trabalho invisível.
Finalmente apercebemo-nos dessas
pessoas, os trabalhadores essenciais
que mantêm o sistema a funcionar,
mas elas estiveram sempre lá. Só
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