Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1

14 VISÃO 11 JUNHO 2020


não lhes prestávamos atenção. Mas
a Natureza também oferece serviços
essenciais que continuamos a des-
valorizar. Hoje conseguimos ver essa
bolha do trabalho, mas há outras
bolhas mais profundas para as quais
continuamos cegos, como a de onde
vem a nossa comida e a nossa energia,
e para onde vai o nosso lixo. E se não
olharmos para esses sistemas, vamos
ter problemas.
Conta uma história sobre um grupo
de chimpanzés a apreciar um pôr
do Sol. Se as pessoas pensarem
nos animais como seres com
inteligência ao ponto de apreciar a
beleza, acredita que deixariam de
comer carne?
No outro dia, cruzei-me com a história
de um caçador, no Canadá, que matou
um ganso selvagem e, quando se apro-
ximou, viu a parceira do ganso a prote-
gê-lo com as asas; nesse momento, o
caçador viu amor e não voltou a caçar.
Não digo que isso acontecerá sempre.
Há até muitas situações em que comer
carne é uma questão de sobrevivência.
Aqui no Canadá, nas zonas mais próxi-
mas do Ártico, não há supermercados
nem hortas – as pessoas têm de caçar
para comer. Não defendo que temos
de quebrar a corrente de vida. Mas eu
não como carne, porque não preciso.
Há tantas alternativas, além de que
sei o impacto que tem nas alterações
climáticas. A resposta a essa pergunta,
no entanto, talvez seja esta: quando
nos apaixonamos pelo mundo, lutamos
para protegê-lo. Tal como as pessoas
adoram os seus animais de estimação:
vemos a internet cheia de declarações
de amor aos cães, gatos, lontras... Se
um extraterrestre espreitasse a nossa
internet, julgaria que éramos a espécie
mais carinhosa do planeta. Mas, nos
bastidores... Se pensarmos nos 66 a 70
mil milhões de animais que abatemos
todos os anos... Esse é um grande pon-
to cego. Acalmamos as nossas cons-
ciências com o facto de sermos tão
amorosos com os nossos cães e gatos,
mas temos de olhar mais profunda-
mente, porque este sistema de vida de
que dependemos está desequilibrado.
Tudo o que fazemos tem impacto.
Um vegan que coma abacate está a
subsidiar criminosos no México,
que controlam grande parte da
sua produção; se comer quinoa,
fará subir os preços ao ponto de os
bolivianos pobres, que a tinham
como base da sua alimentação, já
não a poderem comer...


Se pensarmos nos
66 a 70 mil milhões
de animais que
abatemos todos os
anos... Acalmamos
as nossas
consciências com
o facto de sermos
tão amorosos com
os nossos cães
e gatos, mas temos
de olhar mais
profundamente

Sim, tudo tem impacto... Mas,
por exemplo, nunca pensamos na
soberania alimentar. Julgamos que
somos donos do mundo, mas, na
verdade, é um pequeno grupo de
pessoas que é dono do mundo.
Se olharmos para os grandes
bilionários, que são quem está a
ganhar dinheiro neste momento...
Porque é que estão a ganhar mais e
mais? Porque são responsáveis pela
comida, pela energia e pela tecnologia


  • os sistemas fundamentais. Não
    podemos continuar a depender destes
    mastodontes, estas empresas gigantes,
    para nos alimentarmos. Temos de
    abanar esse sistema.
    Independentemente de o sistema
    alimentar estar nas mãos de
    10, 20 ou 1 000 empresas: é
    possível alimentar quase 8 mil
    milhões de pessoas sem um setor
    industrializado?
    Josh Patrick, o criador da Just Egg
    [uma empresa que comercializa um
    substituto vegan do ovo], costuma
    dizer que o setor alimentar não está
    completamente podre – está só
    meio podre. Não há nada de errado
    com os sistemas de refrigeração,
    de transporte, de distribuição. As
    pessoas têm é de se aperceber de
    que podem substituir a proteína.
    Rinocerontes, elefantes, hipopótamos
    são enormes, e são vegetarianos.
    Portanto, sim, podemos reparar o
    nosso sistema alimentar. Os projetos
    de algas... Há novas formas de fazer
    comida que usam menos terra, menos
    água, são menos intensivas. E isso é


fundamental, atendendo a que temos
problemas crescentes de degradação
de solos e de água potável. Somos
uma espécie com engenho. Vamos
conseguir consertar a tal metade
podre do sistema e alimentar a
população.
Cita a célebre frase atribuída
a Estaline: “Uma morte é uma
tragédia, um milhão é uma
estatística.” A cegueira ao que fica
fora da nossa escala, por ser muito
pequeno ou muito grande, é o que
nos torna insensíveis?
Sim. Como os grandes números que
vemos nos jornais e pelos quais os
nossos olhos passam sem realmente
parar... Números como “40 mil
milhões de árvores desaparecem
todos os anos” são demasiado grandes
para a pessoa comum apreender.
Se começarmos agora a contar até
mil milhões, demoramos 30 anos. A
maioria das pessoas não compreende
o que são mil milhões. Mas temos
empresas que valem milhares de
milhões de dólares... Jeff Bezos está a
caminho de se tornar um trilionário
[a sua Amazon tem um valor de
mercado que já ultrapassa o bilião
de dólares, que em inglês é trillion].
Criámos um sistema tão desigual
que uma dúzia de bilionários detém
metade da riqueza do mundo. Há
uma citação interessante do Richard
Feynman, o matemático [que morreu
em 1988]: “Há 10 elevado a 11 de
estrelas na galáxia. Isso costumava
ser um número gigantesco. Mas é só
100 mil milhões, o que é menos do
que o défice dos EUA. Costumávamos
chamar-lhes números astronómicos.
Agora devíamos chamar-lhes números
económicos.” Esses números enormes,
como 60 milhões de campos de
futebol desflorestados todos os anos,
ou 1,676 biliões [milhões de milhões]
gastos em armas... Como é que as
pessoas podem reagir quando não
sabem sequer o que são mil milhões?
É sequer possível o cérebro
humano compreender realmente
quantidades dessa ordem de valor
ou conceitos como o infinito?
Não, o cérebro humano não consegue
compreender. Há estudos sobre isto,
como aquele em que se perguntava
às pessoas quanto estavam dispostas
a contribuir para salvar aves presas
numa mancha de petróleo: quanto
maior o número de aves, menos
as pessoas contribuíam. O mesmo
acontece quando há um sismo. Se for
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