Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1
18 VISÃO 11 JUNHO 2020

*Diretora
manjos@visao.pt

OTIMISMO IRRITANTE


Para muito boa gente, há qualquer coisa de
enervante num otimista. O género huma-
no tem um quê de melancólico e gosta de
antecipar os piores cenários, diz a Psicolo-
gia, para se poder precaver para eles. Num
líder, ser apenas moderadamente otimista é
uma atitude de pura sensatez. O que se quer
mesmo é que seja realista, mas, como todos
sabemos, a leitura que se faz da realidade
pode ser mais colorida ou acinzentada. Ser
realista (tal como fazer prognósticos, diria o
outro) só é fácil depois da partida terminada.
Durante uma pandemia com um impacto
económico sem precedentes na História do
País, no Governo parece reinar um otimis-
mo desconcertante. Há quem diga mesmo
irritante. Pedro Siza Vieira é um homem
visivelmente satisfeito com a sua bazuca dos
26 milhões que (façamos figas) chegarão da
Europa. “Preparem-se!”, anda há dias a avi-
sar. Vai vir charters com dinheiro – “vamos
ter mais recursos nos próximos anos do
que alguma vez tivemos na nossa história
democrática”, disse à VISÃO. Só não se sabe
bem ainda para gastar onde e como, porque
nisso está António Costa e Silva a pensar.
Quando se falava em atirar dinheiro de heli-
cópteros, não era bem esta a ideia...
Mas começam a desenhar-se agora com
mais clareza as previsões do Executivo para
estes tempos. Na conferência de imprensa de
apresentação do Programa de Estabilização
Económica e Social – o penso rápido no qual
o Governo desenhou as medidas de apoio
às empresas, aos trabalhadores e às famílias
que vão entrar em vigor ainda este ano –,
António Costa revelou dois números que
constarão do orçamento suplementar. Se-
gundo estas contas, o PIB vai cair 6,9% este
ano e a taxa de desemprego subirá dos 6,5%,
de 2019, para 9,6%, em 2020. Para 2021,
Siza Vieira antecipa “um ano de crescimento
muito vigoroso da economia, com capacida-

de de mobilizar fundos para apoiar o investi-
mento público e privado a ritmos que nunca
conhecemos em Portugal”. Uma euforia.
Porém, bastante menos entusiasmados
parecem estar os especialistas do Conse-
lho de Finanças Públicas que dizem que
a economia portuguesa pode registar, na
melhor das hipóteses, quebras entre 7,5%
e quase de 12%, no cenário mais severo. O
défice deverá ficar entre 6,5% e 9,3% do PIB
este ano, devido à pandemia Covid-19, e o
saldo manter-se-á negativo em 2021 e 2022,
acredita. Uma recessão a ultrapassar os 11%
é algo que não se vê desde 1973.
Com um problema. Ou vários. Na crise ante-
rior, entre 2012 e 2014, foi o turismo a tábua
de salvação para sair dela. Só que agora esta
tábua está esburacada – é e continuará a ser
precisamente este um dos mais ameaçados
por esta paragem forçada. Quando um setor
que representa 14% do PIB e tem agilida-
de de resposta às crises está tão bloqueado,
uma retoma acelerada pode ser complicada.
É certo que é preciso apostar em conceitos
como o aumento da produtividade, a com-
petitividade da economia e as exportações,
mas mesmo estas estarão condicionadas
com um mundo que abrandou abruptamen-
te. Os efeitos não serão imediatos.
Voltaire, que era um grande pessimista,
escreveu um belo romance, satírico, claro
está, sobre o otimismo. Parece que temos
um Governo imbuído do mantra do mestre
Pangloss: “Tudo vai pelo melhor no melhor
dos mundos possíveis.” Mas, se calhar, mais
vale fazer como o protagonista, Cândido,
que depois de muitos contratempos e de-
salentos, nos deixa um conselho na última
frase enigmática do livro: está bem, isto vai
tudo muito bem e o mundo é maravilhoso,
mas o melhor é mesmo precavermo-nos e
dedicarmo-nos a “cultivar o nosso jardim”.
Com realismo.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

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POR
MAFALDA ANJOS*
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