Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1
60 VISÃO 11 JUNHO 2020

C


Caída no chão, Idalina não tinha forças para
mexer um único músculo do seu corpo. Não
conseguia ver. Não conseguia ouvir. Não con-
seguia falar. Aos poucos, começou a dar-se
conta de uma voz longínqua que, insistente-
mente, lhe perguntava: “Mãe, estás viva?”. A
filha de 7 anos tinha assistido, aterrorizada, ao
seu espancamento às mãos do pai.
“Sentia que ela me agarrava na mão, mas
não conseguia dizer-lhe que estava viva”, re-
corda Idalina. Aos 46 anos, ao fim de quase
uma década de violência, ser brutalmente
agredida à frente da menina – enquanto ela
gritava para o pai parar – foi o seu limite. Os
vizinhos voltaram a chamar a polícia mas,
desta vez, seria diferente. Decidiu acompanhar
os agentes à esquadra e levou a filha consigo.
“Quando entrei no carro da polícia, senti um
grande alívio, uma certa alegria, até”, confessa.
Já não voltaria atrás.
Desde o verão do ano passado que vive, jun-
tamente com a filha, numa casa de abrigo, cuja
localização é secreta por razões de segurança.
“Benditas casas que nos acolhem”, diz, como
quem reza uma oração. Mas a pandemia veio
estragar-lhe os planos: preparava-se para es-
trear o seu próprio apartamento. “Devia ter-me
mudado na altura da Páscoa, mas não pude sair
por causa da doença”, lamenta. Idalina afasta a
desilusão com o conforto de já ter as chaves da
sua nova morada na mão: “Fui vê-la, tem dois
quartos. A minha filha adorou. É a primeira vez
que realizo um sonho.” Agora adiado.
Durante muito tempo, só o som das chaves
do marido a abrir a porta dava-lhe a volta ao
estômago. Ainda incrédula, relembra a reação
do seu agressor sempre que viam notícias na
televisão sobre casos de homicídio em contexto
de violência doméstica – foram 35 no ano pas-
sado. “Malandro, vê lá que matou a mulher!”,
dizia-lhe. “Eu ficava parva a pensar se ele não
percebia o que fazia”, admite.
Agora, até a filha utiliza a terminologia que
ouve as técnicas usarem: “Mãe, não voltas para
o agressor.” Vocabulário que uma menina de
7 anos não deveria saber de cor.
A secretaria de Estado para a Cidadania e
a Igualdade anunciou um reforço do investi-
mento no acompanhamento psicológico de
crianças e jovens vítimas de violência domés-
tica no valor de 2,7 milhões de euros.
Na semana passada, começou a circular uma
petição com o objetivo de obrigar a Assembleia
da República (AR) a discutir a aplicação do es-
tatuto de vítima a crianças que testemunhem
crimes de violência doméstica. Uma medida
incluída numa das propostas de lei de altera-
ção do regime jurídico de proteção de vítimas
aprovada pela AR no início de maio, que aguar-
da discussão na especialidade. Propõe-se, por
exemplo, a realização de inquéritos sumários
com o propósito de recolher provas logo nas
72 horas seguintes à apresentação da queixa

e, também, o alargamento das competências
dos juízes de instrução criminal, que passam
a definir medidas provisórias relativamente
aos menores envolvidos nos processos, como
a regulação das responsabilidades parentais.

CONFINADOS COM O INIMIGO
O caso de Idalina seguiu para tribunal. “Não
peço uma pena de prisão, nem uma indem-
nização, só quero distância”, afirma, decidida.
Traz sempre consigo o dispositivo de teleassis-
tência que lhe permite pedir ajuda em caso de
perigo, carregando num simples botão. Porém,
reconhece, ainda não conseguiu “mandar o
medo todo embora”.

A BRUTALIDADE
DOS NÚMEROS
Apesar da
diminuição das
participações
junto das forças
de segurança,
às organizações
de apoio às vítimas
de violência
doméstica
continuaram
a chegar pedidos
de ajuda

1 277


QUEIXAS POR
VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA
recebidas pela
PSP durante
o confinamento
obrigatório
(de 23 de março
a 2 de maio),
menos 33%
em relação ao
mesmo período
do ano passado

418


VÍTIMAS
DE VIOLÊNCIA
ACOLHIDAS
EM CASAS DE
ABRIGO ENTRE
30 DE MARÇO
E 24 DE MAIO.
Destas, 251 eram
mulheres,
155 eram
menores e 12
eram homens.
No primeiro
semestre de
2019, foram
recebidas
613 pessoas

NÃO PEÇO UMA PENA


DE PRISÃO, NEM UMA


INDEMNIZAÇÃO. SÓ QUERO


DISTÂNCIA”


IDALINA, 46 anos, vítima de violência doméstica
durante quase uma década
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