Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1
11 JUNHO 2020 VISÃO 61

Tal como Idalina, muitas outras mulheres
foram obrigadas a permanecer mais tempo
do que o inicialmente previsto nas casas de
abrigo onde foram acolhidas, por causa da
pandemia. Algumas das que estavam prestes
a autonomizar-se perderam o emprego com a
paralisação da economia. Além disso, temia-se
o agravamento dos ataques devido ao confina-
mento com os agressores. Razões que levaram
a Secretaria de Estado para a Cidadania e a
Igualdade a criar uma centena de vagas extras
de acolhimento, no final de março.
Nos últimos dois meses, entre 30 de mar-
ço e 24 de maio, foram recebidas 418 vítimas
de violência doméstica em casas de abrigo,
o equivalente a quase 70% do número total
de pessoas acolhidas ao longo do primeiro
semestre do ano passado. “Não registámos
uma diminuição drástica dos pedidos de ajuda
durante a pandemia”, começa por dizer a se-
cretária de Estado, Rosa Monteiro. No entanto,
devido ao confinamento, as vítimas viram di-
ficultado o acesso a redes de entreajuda, como
a família ou o trabalho, e aos serviços de apoio
especializado – daí que tenham sido criadas
formas alternativas de contacto não presencial.
À linha telefónica da Comissão para a Ci-
dadania e a Igualdade de Género juntou-se
um endereço de email e um número de SMS.
Entre 19 de março (o dia seguinte à declaração
do estado de emergência) e 31 de maio (quando


terminou o estado de calamidade), estas três
formas de apoio não presencial receberam 599
pedidos de ajuda, quatro vezes mais do que em
igual período do ano passado.

PERDER O AMOR À VIDA
Soraia tem dificuldade em recordar a sequên-
cia dos acontecimentos, mas lembra-se de
estar deitada numa maca, a ser transportada
para o hospital numa ambulância do INEM,
e de pensar que nunca mais regressaria à casa
onde se sentia cativa. Ultimamente, era ha-
bitual o companheiro ausentar-se e trancar
a fechadura, impedindo-a de sair. “A pande-
mia complicou tudo, mas ele já era assim...”,
reconhece Soraia, cerca de um mês depois
daquela noite quase fatídica. De acordo com
a informação recolhida pela secretaria de Es-
tado para a Cidadania e a Igualdade, 70% das
pessoas que procuraram ajuda desde o início
da crise sanitária relataram um agravamento
da violência durante o confinamento.
Diagnosticada com uma depressão, não
aguentou mais a violência das acusações cons-
tantes de que tinha ido ver a família e de que
tinha passado o dia inteiro sem fazer nada em
casa. Após mais uma discussão descontrolada,
foi contra si própria que se voltou. Aos 38 anos,
Soraia tentou suicidar-se.
Há cerca de um ano, o companheiro con-
venceu-a a ir viver com ele para a habitação
onde também morava o seu pai, que exigia
cuidados diários. “Eu era uma empregada da-
quela família, não havia amor nenhum”, afirma,
convicta. Os dois filhos, de 12 e 17 anos, fruto
de relacionamentos anteriores, ficaram a viver
com a avó materna. “Eles nunca gostaram dele
e não quiseram ir comigo.” Soraia acreditou
que teria liberdade para os ver sempre que
quisesse, mas não foi assim. Chegou a passar
três semanas seguidas sem estar com os filhos,
porque o companheiro não a deixava ir ao seu
encontro. “Foi a pior coisa que eu fiz. Nunca
os devia ter deixado”, diz, amargurada.
“Naquela última noite, senti uma tremenda
vergonha de ir outra vez pedir ajuda à minha
mãe”, conta. “Estava esgotada. Não sei o que
me passou pela cabeça”, lamenta, embaraçada.
“Fazer uma coisa dessas por causa de um ho-
mem?”, questiona, incrédula, como se falasse
da vida de outra pessoa. “Dou graças a Deus
por ter sobrevivido.” Atualmente, tem apoio
psicológico e está medicada para a depressão.
“Os quadros psiquiátricos estão, muitas
vezes, associados às relações abusivas, mas,
mesmo quando são preexistentes, agravam-se
com as agressões”, alerta Leandra Rodrigues,
coordenadora geral do Gabinete de Atendi-
mento à Família (GAF), responsável por parte
das 100 novas vagas de acolhimento.
Em Portugal, não existem dados sobre as
tentativas de suicídio praticadas por pessoas
com historial de violência doméstica, mas, no

599


PEDIDOS
DE AJUDA
REGISTADOS
pelas linhas
de apoio
da Comissão
para a Cidadania
e a Igualdade de
Género, de 19
de março a 31
de maio, quatro
vezes mais
do que entre
março e maio
de 2019. Mais de
metade (56%)
chegou através
dos contactos
de SMS e de
email criados
no âmbito da
pandemia

11 591


PESSOAS
ATENDIDAS
PELA REDE
NACIONAL
DE APOIO ÀS
VÍTIMAS DE
VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA,
presencialmente
e não presencial-
mente, entre
30 de março
e 24 de maio.
Cerca de 60%
contactaram
o serviço já
depois de 10
de maio,
em pleno
desconfinamento
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