Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1

62 VISÃO 11 JUNHO 2020


Reino Unido, calcula-se que 23% das vítimas
tenham atentado contra a própria vida, com-
parativamente com 3% da população em geral.
A história de violência de Soraia começou
cedo. Teria uns 8 anos quando viu o pai bater
na mãe pela primeira vez. “Ia preocupada para
a escola por deixá-la sozinha”, lembra. Também
a matriarca acabaria por divorciar-se.
Quando saiu da casa do companheiro, So-
raia equacionou ir viver com a mãe, junto dos
filhos, mas ela não aceitou recebê-la de volta.
“Sabia que ele iria lá para a porta fazer uma
pouca-vergonha...”, justifica. A única opção
foi ser acolhida numa casa de abrigo. Devido
às restrições impostas pela pandemia, ainda
não foi visitar os filhos, mas conversam por
telefone. “Estou muito arrependida de os ter
deixado por causa dele. Quero muito recuperar
o tempo perdido.”
Medo, esperança e culpa. É esta trilogia que,
muitas vezes, impede as pessoas agredidas de
quebrarem o ciclo da violência. “Têm medo
do que poderá acontecer-lhes e aos filhos,
alimentam a esperança de que as coisas pos-
sam mudar e, quando não mudam, culpabi-
lizam-se por isso, pensam que deveriam ser
melhores”, explica Daniel Cotrim, psicólogo
da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima,
organização que gere metade das 100 vagas de
abrigo recém-criadas.


MOMENTOS DE ALTO RISCO
Aos 27 anos, Sandra recebeu a notícia da sua
ida para uma casa de abrigo com entusiasmo.
Afinal, era sinónimo de que, depois de ter recu-
perado a filha, também o filho iria permanecer
ao seu cuidado por deliberação do tribunal. Os
primeiros casos de Covid-19 não tardavam a
aparecer no País quando Sandra deu início a
esta nova etapa com os filhos de 7 e 3 anos.
Ao longo de mais de meia dúzia de anos
de violência, tornou-se habitual o marido
ameaçá-la de morte, caso arriscasse ir-se em-
bora e levar os filhos do casal. Mesmo assim,
quando Sandra anunciou que ia partir, não
esperava uma reação tão brutal. O agressor
encostou-lhe uma faca ao pescoço à frente da
filha mais nova.
A maior parte dos homicídios em contexto
de violência doméstica acontece, precisamente,
quando há um pedido de divórcio ou quando
a vítima inicia uma nova relação amorosa, já
depois da separação. “São momentos de alto
risco a que temos de estar atentos”, alerta
Daniel Cotrim.
Impedida de levar os filhos consigo quan-
do foi fazer queixa na polícia, ao regressar a
casa percebeu, desesperada, que os meninos
tinham sido levados para junto da avó paterna.
Recorreu à Justiça e só voltou a vê-los ao fim
de quase um ano. Enquanto estiveram com o
pai, as crianças eram castigadas se falassem
na mãe. Sandra sempre se sentiu em risco en-


quanto estiveram juntos. “Ele chegou a pedir
uma arma emprestada a um amigo e a guar-
dá-la em casa”, revela. Temer pela vida devido
ao agravamento das agressões ou a violência
estender-se a outros membros da família são
dois dos principais gatilhos para quebrar o
ciclo da violência, nota Patrícia Faro, diretora
técnica da casa de abrigo da Cruz Vermelha.
Obrigada a deixar de trabalhar pelo marido,
Sandra já tem emprego garantido, assim que
passar a “atrapalhação” da Covid-19. “A pan-
demia veio complicar ainda mais o reinício
de vida destas pessoas. É mais difícil arranjar
trabalho, os processos judiciais estiveram pa-
rados, não era possível tratar da transferência
de escola das crianças... Tudo isto trouxe mais
angústia”, sublinha Patrícia Faro.
Maria esteve quase 20 anos à espera. “Não
foi por dependência económica que fui fi-
cando. Sempre trabalhei, mas os meus filhos
adoravam-no”, afirma. “Ele sentia-se seguro
porque sabia que, se fosse para sair, tínhamos
de sair os três”, sintetiza.
O momento chegou em plena pandemia,
no início de março, quando ainda não se fazia
ideia de qual seria o impacto da infeção em
Portugal. Finalmente, estavam os três decidi-
dos e nem o perigo de contágio os iria impedir.
“O meu filho já não se sentia bem no ambiente
lá de casa e a minha filha chegou a dizer que
o pai estava louco”, descreve. A gota de água

8


MULHERES
ASSASSINADAS
em contexto
de violência
doméstica
desde o início
do ano. Em 2019,
só no primeiro
trimestre, foram
mortas 14

100


VAGAS EXTRAS
NAS DUAS
CASAS
DE ABRIGO
criadas para
acolher vítimas
de violência
doméstica
durante
a pandemia
somam-se
às cerca de
600 já existentes
e às 150 de
acolhimento
de emergência
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