Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1
11 JUNHO 2020 VISÃO 63

AJUDA EM LINHA


Eis alguns
contactos úteis
para pedir ajuda
ou denunciar
casos de violência
doméstica:

COMISSÃO PARA
A CIDADANIA
E A IGUALDADE
DE GÉNERO
800 202 148
gratuito,
confidencial,
24 horas por dia

3060
gratuito e
confidencial, não
surge na fatura
telefónica

violencia.covid@
cig.gov.pt

LINHA NACIONAL
DE EMERGÊNCIA
SOCIAL
144
gratuito,
confidencial,
24 horas por dia

ASSOCIAÇÃO
PORTUGUESA DE
APOIO À VÍTIMA
(APAV)
116 006
gratuito,
confidencial,
dias úteis
das 9h às 21h

foi uma discussão com o filho de 19 anos, que
acabou com o pai a atirar objetos e cadeiras
pelo ar, além de ter agredido fisicamente a
mãe. Habitualmente, as agressões eram verbais.
Saíram no dia seguinte. Aos 44 anos, Maria
estava pronta para iniciar uma nova vida, mas
os desafios estavam só a começar.
O primeiro choque foi não encontrar um
apartamento para alugar. “A sugestão que
nos deram nos serviços sociais da câmara foi
irmos para uma casa de abrigo. Eu nem per-
cebia muito bem o que era, e não me sabiam
dizer para onde ia. Podia ser obrigada a deixar
a minha vida toda para trás, incluindo o meu
emprego”, dispara, indignada. “Eu estou efe-


tiva, o que nos tempos que correm não é fácil
e, nesta altura, é complicado arranjar trabalho.
Fiquei aterrorizada e recusei.”
Sem alternativa, apesar de não querer in-
comodar a mãe, foi viver com ela. “Há duas
coisas fundamentais quando se passa por
um processo destes: a ajuda da família e a
compreensão no local de trabalho.” Mas nem
sempre esses apoios estão garantidos. De
acordo com Leandra Rodrigues, é frequente as
vítimas acolhidas pelo GAF não terem suporte
familiar. “Às vezes, como não saíram de casa
à primeira ou acabaram por voltar, a família
afasta-se, mas também há casos de precon-
ceito, em que os mais velhos lhes dizem para
aguentar”, constata.
À casa de abrigo da Cruz Vermelha têm
chegado cada vez mais mulheres da faixa etária
de Maria, mas a maior parte aparece sozinha.
“Têm entre 45 e 55 anos e estiveram à espera
de que os filhos se autonomizassem para saí-
rem”, contextualiza Patrícia Faro.
Maria habituou-se a receber 50 mensagens
por dia do ex-marido no telefone. Além de ir
ao seu local de trabalho, o agressor pressio-
nou a sua diretora a despedi-la. Sem sucesso.
Embora tenha apresentado queixa, o Mi-
nistério Público (MP) sugeriu-lhe a suspensão
do processo. Sendo a violência doméstica um
crime público, a participação não admite de-
sistência. Mesmo contra a vontade da vítima
pode seguir para julgamento, mas, com fre-
quência, quando o ofendido decide não prestar
declarações, é impossível fazer prova e o caso
acaba arquivado.
Os argumentos invocados pelo MP foram
vários. “Ele não ter antecedentes criminais,
estar tudo muito parado nos tribunais devi-
do à pandemia e ele poder ficar com o registo
criminal manchado”, conta Maria. Pareceu-lhe
que estavam mais preocupados com o réu
do que com a vítima. “Mas eu também não
tinha vontade de andar nos tribunais, de ser
chamada a depor não sei quantas vezes e de
levar os meus filhos a testemunhar”, conclui.
Ainda assim, não cala a indignação. “Ele ficar
tranquilamente em casa é das coisas que mais
me revoltam. Eu é que sou a vítima e eu é que
tenho de sair?”, interroga. “Tudo o que eu tinha
ficou lá dentro, até as fotografias dos meus
filhos. Isso trava muitas mulheres, como me
travou a mim durante muito tempo.”
Apesar das dificuldades, não tem dúvidas.
“Não vou dizer que é fácil, mas tenho uma
sensação de liberdade que não sentia há muito
tempo”, assegura. “Quando há reportagens
sobre este tema, há alturas em que não que-
remos ver para não nos identificarmos mas,
acreditem, depois de darmos o passo, muda-se
para muito melhor.” Palavra de sobrevivente.
vfmaia@visao.pt
Os nomes das vítimas de violência doméstica
foram alterados para sua proteção.

EU É QUE SOU A VÍTIMA


E EU É QUE TENHO DE SAIR


DE CASA? ISSO TRAVA


MUITAS MULHERES”


MARIA, 44 anos, vítima de violência doméstica
durante quase 20 anos

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