Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1
66 VISÃO 11 JUNHO 2020

tenho mais próximo é na Alameda”,
acrescenta. Do que está a gostar mes-
mo é dos passeios em grupo: “É giro
o despertar para isto, vejo mais gente
como eu a ‘ciclar’.”

MAIS DO QUE UMA MODA
A que se deve o fenómeno imparável
que apanhou de surpresa as grandes
cadeias e lojas de bicicletas, um pouco
por toda a Europa? No Reino Unido,
as vendas triplicaram e as reparações
não ficaram atrás. Uma pesquisa da
Bicycle Association citada no jornal
The Guardian refere que sete em cada
dez compradores são ciclistas novos
ou que voltam a pegar no velocípede
que estava esquecido na garagem. Es-
tradas tranquilas, mais tempo livre e
a perceção de este ser um meio mais
seguro para retomar o trabalho nos
próximos meses traduziram-se no
aumento de mais de 50% das vendas
em abril. No site eBay, o consumo de
novas bicicletas triplicou, verifican-
do-se ainda um aumento de 23% no
setor da segunda mão, em relação ao
mesmo período do ano passado.

Não foi assim tão diferente em
Itália, em França ou na Alemanha:
aqui, o início do desconfinamento
resultou numa “procura alucinante”,
com stocks esgotados, longas filas e a
bicicleta a converter-se no “meio de
transporte do momento”, noticiou a
emissora Deutsche Welle.
Esta viragem pode ser compreen-
dida pela necessidade de um escape
na quarentena e, depois dela, uma

N


Uma família, muitas rodas
Os Ralha deslocam-se numa
Yuba Longtrail dentro da cidade.
O carro fica reservado para as
longas distâncias e férias

Nunca se viu tanta gente a circular em
duas rodas no continente europeu. O
confinamento parece ter feito mais pela
procura crescente de bicicletas para
uso próprio do que a expansão das
ciclovias, a consciência ambiental e a
vontade de fazer desporto. Atesta-o Ivo
Pitarma, 42 anos, a viver no bairro his-
tórico de Alfama. Habituado a circular
na Vespa e a fazer deslocações laborais
no carro, estacionado numa zona da
EMEL, chegou a alugar uma bicicle-
ta, mas durante a quarentena decidiu
comprar uma Riverside: “Foi um bom
argumento para sair de casa e ir apa-
nharmos ar duas vezes por semana.” Pai
de duas meninas, Carolina e Mariana,
6 e 3 anos, o diretor comercial expe-
rimenta as alegrias das novas rotinas,
os passeios em duas rodas com pais
de colegas da mais velha: “Sabe bem
desanuviar, pedalar e mudar hábitos.”
José Ágoas, 39 anos, é um dos seus
companheiros do grupo do pedal. Aos
fins de semana, o profissional liberal
sai da freguesia da Penha de França,
em Lisboa, com as duas filhas, Aurora
e Glória, 6 e 4 anos, junta-se a Ivo e os
seis alternam entre as rotas da zona
da Expo e Belém. As mais pequenas
vão atrás, de boleia, e as mais velhas
ao lado, na bicicleta delas.
A “maluqueira” de usar o velocí-
pede como meio de transporte sério,
sem optar pelo carro ou pelos trans-
portes públicos, vem dos tempos em
que José passou quase um mês na Ho-
landa. Tinha comprado uma há 15 anos
e recuperou-a, tendo colocado um pa-
ra-lamas e um assento no quadro de
alumínio para levar a Aurora. Com o
nascimento da Glória, deixou de poder
fazê-lo, “até por haver empedrados e
linhas de elétrico em vez de ciclovia”.
Às vezes, vai a pé ao supermercado,
a 200 metros de casa; outras, leva
a mochila e dá-lhe uso quotidiano,
adaptando-se aos caminhos.
O carro ficou para viagens longas
e de uso profissional. “Não me com-
pensa a GIRA [serviço de bicicletas
partilhadas de Lisboa], o local que
Free download pdf