Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1
11 JUNHO 2020 VISÃO 77

MARCOS BORGA

de broncologia. No ano seguinte, era inau-
gurada uma nova área de pressão negativa,
dessa vez no Serviço de Infeciologia, com
cinco quartos de isolamento e uma sala
de tratamentos. E, ainda, um laboratório
de bacteriologia em pressão negativa. “Foi
esta a minha intenção – proteger os pro-
fissionais de saúde que tratam os doentes
e que têm de entrar em contacto com eles
e, militarmente, estar preparado para si-
tuações de guerra biológica”, explicava o
antigo diretor do HMB, o general médico
Esmeraldo Alfarroba, num artigo publicado
na revista O Sargento, em janeiro deste ano.
É também para esse risco novo – o
terrorismo biológico – que o presidente
da Asmir chama a atenção. “Aquando da
invasão da Líbia, nós estávamos no Con-
selho de Segurança das Nações Unidas. E
não nos podemos esquecer de que Durão
Barroso apoiou a invasão do Iraque. Algum
dia, alguém pode lembrar-se de nós”, avisa
Sousa Bernardes, também subscritor da
missiva. Nesse dia, que o general coloca
como um cenário possível, o País precisará
de ter uma resposta pronta. E a resposta
passaria por uma “tríade” de capacidades
do Exército: além das equipas de desinfe-
ção que operam no terreno (como as que
deram um extenso contributo na resposta
ao novo coronavírus) e do laboratório mi-
litar, o HMB seria o terceiro braço da arma
sanitária das Forças Armadas.

INTERVENÇÃO MÍNIMA
O HMB foi encerrado numa época muito
específica: o País tinha entrado em bancar-
rota dois anos antes e encontrava-se ainda,
naquele momento, sob assistência econó-
mica. Os credores exigiam cinto apertado
e, com esse enquadramento financeiro a
ditar tudo o que eram opções políticas, a
ideia de ter três hospitais militares a operar
só em Lisboa não reunia apoio suficiente
para que o HMB se mantivesse de portas
abertas. No início deste ano, já em plena
pandemia, o almirante Silva Ribeiro, chefe
do Estado-Maior-General das Forças Ar-
madas, encarregou o general Alfarroba de
reativar o hospital. Mas, quando percebeu
que não poderia fazer mais do que abrir
uma enfermaria, o antigo diretor do HMB
virou costas.
“Fazer daquilo um lar é como usar um
Rolls-Royce para ir da casa ao pombal”,
ironiza um dos militares que assinam a
carta. “A presente situação de saúde públi-
ca, acentuada pelas reconhecidas dificulda-
des do SNS, aliada à ocorrência mais que
provável de novas pandemias nas áreas da
infeciologia e da virologia, aconselharia que

Perante


os apelos


e reptos que


surjam da


sociedade


civil,


considero


que há um


dever ético


e político


de resposta


hospital, disse que não podemos desper-
diçar recursos”, lembra Pinto Ramalho. É
precisamente isso que militares e civis das
mais diversas áreas defendem para o HMB.
“Nós éramos uma reserva do Serviço Na-
cional de Saúde [SNS] e, agora, somos um
utilizador desses recursos. Isto é gestão de
vista curta”, atira o general que promoveu
a exposição ao líder do Executivo. Na carta
entregue em São Bento, refere-se que “o
aparecimento de novos agentes infecio-
sos, a ocorrência de surtos epidémicos, o
ressurgimento de doenças consideradas
em vias de extinção, a par do aumento da
resistência bacteriana e de outros agentes
patogénicos – obrigando, para o efeito, à
adoção de terapêuticas alternativas e de
estratégias adequadas – deviam consti-
tuir-se como fatores determinantes para
a reabilitação de uma unidade hospitalar
desta natureza”.
No virar do milénio, o HMB foi alvo de
uma atualização significativa. Em 2001, foi
inaugurada a área de pressão negativa do
Serviço de Pneumologia, com dois quar-
tos de isolamento, uma sala de cuidados
intensivos com cinco camas e outra sala

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