Visão (11 a 17 Junho 2020)

(Banca) #1

78 VISÃO 11 JUNHO 2020


FORÇAS ARMADAS

OPINIÃO

aquela ex-unidade hospitalar pudesse ser
objeto de uma total reabilitação”, defendem
os subscritores do documento.
Após o investimento mais recente,
que pode ter chegado aos 750 mil euros,
reativar as unidades de pressão negativa
e reabilitar os sistemas de oxigénio – as
duas componentes mais relevantes da-
quele hospital e que estão paradas desde
2013 – representaria um custo de cerca de
200 mil euros e reforçaria a resposta do
SNS em, pelo menos, mais 200 camas a
operar em condições raras no País. “Com
uma intervenção feita por pessoas com-
petentes, aproveitava-se 90% daquelas
instalações”, garante Almeida Fernandes,
antigo quadro do Laboratório Nacional
de Engenharia Civil e filho de Afonso Al-
meida Fernandes, ex-ministro do Exército
de Salazar que, na década de 1960, liderou
uma comissão responsável por desenhar
o projeto do futuro hospital militar. “O
constante aparecimento de novos surtos
epidémicos, que passam a surtos pandé-
micos, aliado às alterações climáticas e a
doenças que se julgava estarem em vias de
extinção, além do aumento das resistências
bacterianas, mostram-nos a importância
de um hospital como este”, defende Delfim
Rodrigues, antigo diretor-geral da Saúde.
“No futuro, um hospital desta natureza é
indispensável para um surto pandémico
que possa haver, não estamos livres disso”,
acrescenta o médico, também subscritor
do documento, que aponta o “estado de
prontidão” dos militares e a necessidade
de fazer investigação preventiva – e não
apenas reativa – como dois dos principais
argumentos a favor da reativação daquelas
instalações.
Adalberto Campos Fernandes não vai
tão longe, mas defende que, no mínimo, a
discussão seja retomada. “Se me pusesse
a pergunta há seis meses, dir-lhe-ia que
a função social do HMB se realiza melhor
noutros contextos, com cuidados conti-
nuados integrados em parceria com outras
instituições”, começa por dizer o ex-mi-
nistro da Saúde, que cumpriu parte do
seu serviço militar precisamente naquele
hospital. “Mas”, assume logo de seguida,
“com a experiência dos últimos meses, o
meu espírito abriu-se à reflexão”. De qual-
quer forma, sublinha Campos Fernandes,
“ambas as opções em cima da mesa” – a
reativação de todas as valências do hospi-
tal militar ou a transferência para a CML



  • “visam o interesse público”. E é nesse
    equilíbrio de interesses que a decisão deve
    ser ponderada. “Cabeça fria”, aconselha o
    antecessor de Marta Temido. prainho@visao.pt


Os 8'46'' que


não acabam


A


s imagens do assassínio,
a sangue-frio, com uma
indiferença e uma cruelda-
de repugnantes, do cidadão
norte-americano George
Floyd, negro, 46 anos, por
um polícia, Derek Chauvin,
que estando ele algemado,
estendido no asfalto, lhe compri-
me o pescoço com o joelho durante
8 minutos e 46 segundos, ficará na
História como a famosa foto de Eddie
Adams que mostra, de frente, o cida-
dão vietnamita Nguyen Van Lem com
uma pistola apontada à cabeça, a 20
ou 30 cm da sua têmpora direita, pelo
general Nguyen Ngoc Loan, que com
um tiro o executa, ou abate.
Esta execução foi no Vietname, em
tempo de guerra, e sangrenta, numa
rua de Saigão, a 1 de
fevereiro de 1968, logo
no início da “operação
tet” dos vietcongues
(Frente Nacional para a
Libertação do Vietna-
me) para conquistar
as principais cidades
do país, sendo Nguyen
Van Lem um alegado
dirigente vietcongue.
Aquele assassínio foi
a 25 de maio de 2020,
numa rua da cida-
de de Minneapolis,
Minnesota, em tempo
de paz, e de Trump,
sendo George Floyd
detido porque a polícia
recebera um telefonema a acusá-lo de
ter pago um maço de tabaco com uma
alegada nota falsa de 20 dólares.
No primeiro caso temos uma foto
de uma sequência que vai da prisão de
Van Lem ao seu corpo por terra após
o tiro que o abateu. No segundo temos
vídeos que mostram também desde a
detenção de Floyd até esses terríveis
8 minutos e 46 segundos em que o
polícia lhe comprimiu o pescoço até à
morte. Indiferente ao rogo do homem
que balbucia “não consigo respi-
rar”, como se não fosse um homem
que estivesse ali sob o seu joelho, ou
sequer um animal a merecer compai-

xão, mas um réptil venenoso. O polícia
tendo à volta mais três polícias que
colaboram, não deixando ninguém
aproximar-se. E o homem algemado,
com a cara no asfalto, que de novo
balbucia, implora, “please”, “não con-
sigo respirar”. E o polícia olhando para
o lado, como se não fosse nada com
ele, a mim parece-me que com um
ar de quem está a gostar da situação,
a gostar daquela sensação de poder,
o poder absoluto sobre o negro (o
homem?...) que lenta e friamente vai
asfixiando, matando. Matando com
o joelho sobre o seu pescoço: nin-
guém poderá dizer que o negro Floyd
morreu às brancas mãos de Chauvin,
morreu sob o seu joelho − um joelho
muito antigo e seguramente muito
temente ao seu deus e muito orgu-
lhoso da sua pátria,
poderosa e também
branca, “first”, acima
de tudo, como diz o
outro. Morreu sob o
seu joelho, durante uns
eternos 8 minutos e
46 segundos. Eternos,
porque pareciam não
acabar. E porque de
facto não acabam e
estas imagens ficarão
para sempre. Ten-
do consequências. As
imediatas, estão-se a
ver. As outras...
Mas se neste caso, a
vários títulos exemplar,
pelo “horror”, as ima-
gens, que correspondem às de uma
“curtíssima-metragem”, dizem tudo,
na maioria dos casos não há imagens,
mormente do que ocorre dentro de
instalações policiais. Se as houvesse
do que durante longas horas ocorreu
com o cidadão ucraniano morto no
SEF, no aeroporto de Lisboa, esta-
ríamos perante uma “longuíssima-
-metragem” e com cenas porventura
não menos terríveis... E o Portugal
humanista, democrático, decente,
exige, como já aqui referi, urgência no
apuramento e na divulgação de todos
os factos, com todas as consequências.
jcvasconcelos@jornaldeletras.pt

Ninguém poderá
dizer que o negro
Floyd morreu às
brancas mãos de
Chauvin, morreu
sob o seu joelho
− muito antigo
e decerto muito
temente ao seu
deus e orgulhoso
da sua pátria
branca...

POR JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS
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