(' Super Books ') #1

Na verdade, no curso da história, não fomos capazes de entender o que é a
mente e como ela funciona. Os antigos egípcios, apesar de todas as grandes
realizações nas artes e nas ciências, acreditavam que o cérebro era um órgão
inútil e o jogavam fora quando embalsamavam os faraós. Aristóteles tinha
certeza de que a alma residia no coração, e não no cérebro, cuja única função
era resfriar o sistema cardiovascular. Outros, como Descartes, pensavam que a
alma entrava no corpo através da minúscula glândula pineal, no cérebro. Mas, na
falta de evidências sólidas, nenhuma dessas teorias pôde ser comprovada.
Essa “idade das trevas” persistiu por milhares de anos, e por bons motivos. O
cérebro pesa apenas um quilo e meio, mas é o elemento mais complexo no
sistema solar. Embora ocupe apenas 2% do peso do corpo, o cérebro tem um
apetite voraz, consumindo 20% do total de nossa energia (em recém-nascidos, o
cérebro consome 65% da energia), e 80% dos nossos genes são ativados no
cérebro. A estimativa de neurônios existentes no crânio é de 100 bilhões, com
quantidades exponenciais de conexões e caminhos neurais.
Em 1977, quando o astrônomo Carl Sagan escreveu o livro ganhador do
Prêmio Pulitzer, Os dragões do Éden, ele resumiu o que se conhecia sobre o
cérebro até aquele momento. O livro foi maravilhosamente bem escrito e buscou
representar o que havia de mais desenvolvido na neurociência que, na época, se
baseava fortemente em três fontes principais. A primeira era a comparação de
nosso cérebro com os de outras espécies. Tal tarefa era enfadonha e difícil,
porque envolvia a dissecação de cérebros de milhares de animais. A segunda
metodologia era igualmente indireta, pois analisava vítimas de derrames e
doenças, que passavam a apresentar um comportamento estranho. Somente após
a morte, uma autópsia podia revelar qual parte do cérebro tinha alguma
disfunção. Na terceira, os cientistas usavam eletrodos para investigar o cérebro e,
lentamente e a duras penas, definiam qual parte do órgão influenciava
determinado comportamento.
Mas os instrumentos básicos da neurociência não forneciam um modo
sistemático de analisar o cérebro. Não se podia simplesmente recorrer a uma
vítima de derrame com dano na área específica que se queria estudar. Dado que
o cérebro é um sistema vivo, dinâmico, a autópsia quase nunca revelava os
aspectos mais interessantes, como as formas de interação entre as diversas partes
do órgão, ou como produziam pensamentos tão diversos quanto amor, ódio,
ciúme e curiosidade.


REVOLUÇÕES GÊMEAS


Quatrocentos anos atrás foi inventado o telescópio e, praticamente de um dia