(' Super Books ') #1

para o outro, esse novo instrumento miraculoso passou a vasculhar os corpos
celestes. Trata-se de um dos instrumentos mais revolucionários (e perturbadores)
de todos os tempos. De repente, podíamos ver com nossos próprios olhos os mitos
e dogmas do passado evaporando-se como a bruma da manhã. Em vez de
exemplos perfeitos da sabedoria divina, a Lua tinha crateras acidentadas, o Sol
tinha manchas escuras, Júpiter tinha luas, Vênus tinha fases, Saturno tinha anéis.
Aprendeu-se mais sobre o universo nos quinze anos seguintes à invenção do
telescópio do que em toda a história da humanidade.
Assim como ocorreu com a invenção do telescópio, em meados dos anos 1990
e 2000 a introdução dos aparelhos de imagem por ressonância magnética (IRM)
e de uma série de equipamentos avançados de varreduras cerebrais
transformaram a neurociência. Aprendemos mais sobre o cérebro nos últimos
quinze anos do que em toda a história humana anterior, e a mente, antes
considerada fora de alcance, está finalmente assumindo o lugar central.
O ganhador do Prêmio Nobel Eric R. Kandel, do Max Planck Institut de
Tübingen, Alemanha, diz: “Os insights mais valiosos sobre a mente humana que
emergiram nesse período não vieram das disciplinas tradicionalmente
relacionadas com a mente – filosofia, psicologia, psicanálise. Vieram de uma
fusão dessas disciplinas com a biologia do cérebro...”
Os físicos tiveram um papel essencial nesse empreendimento, produzindo uma
avalanche de instrumentos e siglas, como IRM, EEG, TEP, TAC, EMT, EET e
ECP, que mudaram radicalmente o estudo do cérebro. Com essas máquinas,
passamos a conseguir ver os pensamentos se movendo dentro do cérebro vivo e
pensante. Como diz o neurologista V. S. Ramachandran, da Universidade da
Califórnia, em San Diego: “Todas essas questões que os filósofos têm estudado há
milênios, nós, cientistas, podemos começar a explorar fazendo imagens do
cérebro, estudando pacientes, e fazendo as perguntas certas.”
Olhando para o passado, vejo que algumas das minhas incursões iniciais no
mundo da física se cruzaram com essas mesmas tecnologias que hoje abrem a
mente para a ciência. No ensino médio, por exemplo, tomei conhecimento de
uma nova forma de matéria, chamada antimatéria, e decidi realizar um projeto
de ciências sobre o tema. Como se trata de uma das substâncias mais incomuns
existentes, precisei apelar para a antiga Comissão de Energia Atômica e consegui
uma quantidade mínima de sódio-22, uma substância que emite naturalmente um
elétron positivo (antielétron, ou pósitron). De posse da minha pequena amostra,
consegui fazer uma câmara de nuvens e um poderoso campo magnético que me
permitiram fotografar o rastro de vapor deixado pelas partículas de antimatéria.
Eu não sabia na época, mas o sódio-22 logo iria se tornar essencial numa nova
tecnologia chamada tomografia por emissão de pósitrons (TEP), que desde então
tem nos revelado um conhecimento surpreendente sobre o cérebro pensante.
Outra tecnologia que experimentei na escola foi a ressonância magnética.