Sabor Club - Edição 25 (2019-01)

(Antfer) #1

o conceito numa caixa, sabe? Digo então que aqui é uma cozinha de comida
bem feita e gostosa. Essa é a melhor resposta, sempre.”
A definição, no fim das contas, tem tudo a ver com a essência da culinária
polonesa e também judaica. A origem do que é feito, de uma maneira geral, é
uma muito simples. A mágica está na maneira como tudo é preparado. Sempre
com muita calma, muito cuidado, transformando ingredientes brutos numa
comida delicada, na qual uma receita sempre pode incrementar a outra.
É o exemplo da cebola caramelizada, feita com um tico de azeite e horas a fio
de panela, em fogo muito baixo. Ela dá cor para os varenikes, o travesseirinho
de massa, recheada tradicionalmente com purê de batatas. Os da Clarice são
finíssimos, nasceram com 8 gramas cada um, hoje estão com 15 gramas,
porque ficou delicado demais.Ainda assim são levíssimos e elegantes como os
picles, as geleias, as tortas, a charcutaria. Tudo feito ali.
Mais uma missão muito natural da casa, mais uma vez ligada a origem da
dona é, como dizem as mães judias, fazer você comer direitinho. “Afinal, se você
trabalha e tem a vida agitada, precisa se alimentar adequadamente. A gente se


dá o direito de ficar comendo tranqueiras, como se fosse prêmio. Isso é uma
loucura. Tem tanta coisa boa e gostosa por aí.”
De fato, mesmo a partir do que é absolutamente trivial. “Aqui a nossa lista de
compras é basicamente óleo, farinha, ovo, manteiga e carne de segunda e frango”,
conta Clarice. A ave é importantíssima na culinária do leste europeu, onde se
aproveita tudo, até o osso de cada produto. Da galinha é usada a gordura que dá
gosto para tanta coisa e se faz caldos que incorporam um sem fim de receitas.
Quando há fartura de ingredientes, a vida vira uma festa. Como a que
Clarice e família fazem toda vez que vão para a fazenda deles, na Serra da
Bocaina. Lá se mata um carneiro que, entre outros vira um bacon maravilhoso,
bom de comer cru (a venda na Paca). Também se abate porco, se faz geleia...
“Pô, dá para fazer tudo na fazenda... Tem horta, pomar e até um moinho
elétrico, que é uma engenhoca construída por um amigo do meu pai.
É o melhor lugar para cozinhar.”
E o melhor lugar para fazer as experiências que ela e o pai adoram fazer. Cada
hora elegem um assunto. Se é geleia, chegam a passar a noite falando dela. Se é pão,
dão um jeito de construir um forno e ler uma dezena de livros que falam do tema.


Sal e cambuci
Conserva de
legumes e geleia
da fruta são joias
em potes de vidro

A ideia é genial.
Clarice Reichtul faz
uma conserva na
qual bate legumes,
verduras e ervas
com o sal e só.
Com ela em mãos,
EKIRXITÀIYQE
colher de chá numa
\ ̧GEVEHI«KYE
quente e, voilá,
tem um caldo de
legumes natural
e instantêneo.
Depois de aberto,
o Socorro! (nome
adequadíssimo)
aguenta uns três
meses na geladeira,
uma mão na
roda e tanto para
incrementar desde
um feijãozinho até
uma boa marinada.
Outro produto
que vale nota é a
geleia de cambuci.
Acidez, doçura,
sabor, tudo isso no
mesmo pote. É tão
interessante que
vai bem na torrada,
com queijo e até
acompanhando
uma carne bem
grelhadinha. Assim
como curados e
defumados.

“Como eu quero e posso fazer muita coisa, não quero
colocar o conceito numa caixa, sabe? Digo então que aqui
é uma cozinha de comida bem feita e gostosa”
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