perigoso partir aos deus-dará com a rainha mas, para aquilo, ela teria de ir sozinha. Nem sequer
poderia pedir a Walter que a acompanhasse, pois o irmão era demasiado jovem e inocente, e
desconhecia como funcionava o mundo. E, no entanto, se fosse descoberta e se ficasse a saber
que tinha espiado Anna Maria, seria ela quem arruinaria a reputação e daria azo a um
escândalo. Não poderia ser descoberta.
Frances sempre desprezara o uso de véus – muito populares entre as damas, que os usavam
para esconder o rosto quando se encontravam em demandas ilícitas, ou simplesmente para
protegerem a pele do ar poluído de Londres – mas, naquele dia, deu graças a Deus por aquela
moda existir. Para se assegurar por completo de que disfarçava a identidade, recorreu ao traje
soldadesco de couro que usara ao posar para um quadro.
Com o cabelo louro solto, um grande chapéu tricorne e o véu a ocultar-lhe o rosto, parecia
estranha, um pantomineiro ou um ator de rua que tivesse escapado da feira de S. Bartolomeu e,
ainda que pudesse haver quem a fitasse, ninguém adivinharia tratar-se de Mistress Stuart, a mais
cobiçada pelo rei, assim disfarçada. Naqueles preparos tão convenientes, caminhou com
ligeireza, de cabeça baixa, saindo de Whitehall em direção à Strand.
Protegida pelos muros que rodeavam os terrenos do palácio, era fácil esquecer-se de como
era a vida nas ruas, com aquela energia selvagem e barulhenta. Por todo o lado havia
mercadores a gritar, cavalos puxavam carroças pelas ruas empedradas, obrigando as pessoas a
desviarem-se e a sujarem-se na água imunda dos canais que corriam pelo meio da rua.
Uma florista de touca onde se entrelaçavam flores do jardim parou-a, esperançada:
- Compra uma flor para a sua senhora, senhor? Um ramo só custa um penny!
Frances disfarçou o sorriso e quase tropeçou num pobre coitado caído na estrada, junto a uma
fossa aberta cheia de urina e dejetos das latrinas. E, no entanto, tratava-se da melhor parte da
cidade, onde a pequena nobreza vivia e cuidava dos seus afazeres. Whitechapel e as paróquias
circundantes eram cem vezes mais pobres e sobrepovoadas do que aquela zona.
Na Strand, perto do arraial, contratou os serviços de um liteiro para que a levasse até
Chelsea, onde ela sabia que moravam os condes de Shrewsbury.
No interior confortável da liteira, forrado a linho, foi observando a cidade. Na esquina da rua
que seguia até ao rio, estava um idoso acocorado e a defecar à vista de todos, tão despudorado
quanto um recém-nascido. Crianças esfarrapadas enxameavam as ruas como moscas num monte
de esterco. Não que os mais abastados dessem melhor exemplo. Galãs embriagados
cambaleavam ao sair de cervejarias, agarrando-se a qualquer criada que fosse a passar. Pelo
menos o ar estava mais límpido do que no inverno, quando o permanente queimar de carvão
deixava a cidade mergulhada numa bruma de fuligem, com manchas de sujidade a aterrarem nos
rostos de todos, qualquer que fosse o seu estatuto social.
Por fim chegaram a uma casa na distante Cheyne Walk, grande e bela, construída com tijolos
vermelhos ao estilo Tudor, uma longa galeria na face sul que dava para o rio. Anna Maria saíra-
se bem. Não que isso parecesse satisfazê-la.
Depois de pagar aos liteiros, Frances fitou o enorme edifício. - Diz-se – comentou um dos liteiros, um homem de idade que silvava ao respirar e que ela se