O Último Ano em Luanda

(Carla ScalaEjcveS) #1

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Passaram-se cinco anos intensos e Nuno continuava a ser o mesmo solitário
de sempre, incapaz de alinhar com a sociedade no sentido tradicional do
termo, encontrando nos esquemas marginais, mais ou menos ilegais, um
modo de subsistência independente. Não seria propriamente um traficante de
droga, mas não se inibia de transaccionar um ou outro pacote de liamba se lhe
pediam; não seria propriamente um negociante de armas, mas arranjava
pistolas, facas, shotguns ou o que quer que os soldados estacionados no
Interior lhe encomendassem por capricho guerreiro. O senhor Dantas, uma
daquelas personagens misteriosas que insistiam em povoar as relações
profissionais de Nuno, tornara-se há muito o contacto seguro que fazia
aparecer por artes mágicas todos os artigos que depois ele distribuía nas suas
voltas aéreas pelo Interior. O pequeno homem de calva brilhante, olhos
vivaços e verbo fácil, resolvia problemas, desbloqueava situações. Fazia
milagres, em suma. O senhor Dantas providenciava praticamente todos os
pedidos das listas de encomendas que Nuno lhe entregava, mesmo os mais
bizarros. Ocasionalmente rejeitava um ou outro, não tanto por lhe serem
inacessíveis mas por considerá-los demasiado delicados , como
eufemisticamente se lhes referia, este não, é delicado, queima-nos as mãos,
queima-nos as mãos!, exclamava, erguendo a palma das ditas e agitando-as de
um modo frenético, de olhos arregalados, sério como o diabo, quase
hilariante, naquele seu estilo muito expressivo, muito teatral. Podia não ter
nascido em berço de ouro nem ter estudado na Suíça, mas era um tipo
apurado e combinava muito bem a delicadeza da palavra com a exuberância
do gesto. Passava uma vista de olhos rápida pelo monte de folhas desgarradas
e amarrotadas que Nuno lhe trazia, riscando logo a vermelho com um
pequenino lápis de merceeiro os pedidos delicados . Assim, acontecia recusar
artigos tão variados como granadas de mão, bazucas ou drogas duras. É que
não compensa o risco, justificava-se, abanando a cabeça, quase pesaroso.
Bem vê, meu caro, não estamos preparados para estas coisas, não, não, não,
não... E Nuno concordava. Entretanto, o senhor Dantas fazia-lhe chegar ao
hangar onde estacionava o DO-27, no próprio aeroporto de Luanda, as
encomendas todas, bem acondicionadas em caixotes que, graças às suas boas
relações e aos subornos, não passavam pelo embaraço da vistoria de qualquer
autoridade.


Hoje em dia Nuno repartia-se por duas vidas. Uma, a de piloto solitário,
levava-o dias a fio pelos céus sem fim do sertão, fazendo escalas, cumprindo

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