O Último Ano em Luanda

(Carla ScalaEjcveS) #1

chegavam da metrópole não eram esclarecedoras. O novo poder enviava
mensagens apaziguadoras, declarava que o futuro de Angola teria de ser
pensado tendo em consideração os interesses dos portugueses, que não
haveria independência de mão beijada, que não abriria mão da colónia. Todos
teriam uma palavra a dizer, diziam as novas autoridades, todos, incluindo os
brancos nascidos e criados em Angola. Nas suas primeiras declarações sobre
a colónia, os dois principais generais saídos do golpe de Estado falaram num
Portugal pluricontinental renovado e numa Angola mais progressista sob a
bandeira portuguesa. Não falaram em independência ou em descolonização.
Mas o que se pensava em Luanda, o que se dizia por todo o lado, é que
ninguém fazia um revolução para acabar com uma guerra e depois permitia
que ficasse tudo na mesma. Ou se entregava Angola aos movimentos de
libertação ou se eternizava o conflito e não havia meio termo. As pessoas em
Luanda desconfiavam que os generais emergentes do golpe já tinham
começado a mentir descaradamente, que estavam só a ganhar tempo para se
preparar a descolonização. Enquanto Portugal saía à rua e rejubilava com a
liberdade recuperada, os portugueses de Angola perguntavam-se como é que
essa liberdade, o direito de voto, o fim da censura, a democracia, os salvaria
de um destino desgraçado. Era tudo muito excitante, o regime decadente tinha
sido apeado, vinha aí uma lufada de ar fresco mas, afinal de contas, a
democracia era daquelas palavras que soavam muito bem a toda a gente,
desde que uma pessoa não perdesse os frutos de uma vida de trabalho.


Alguns dias depois da revolução em Lisboa, Regina encontrou-se com um
jornalista seu conhecido. Patrício era um amigo comum, dela e de Nuno. Na
realidade, era mais amigo de Nuno, mas, se ela lhe desse uma oportunidade
de... digamos, a conhecer melhor, Patrício não veria mal nenhum nisso. Era
um tipo esguio, a atirar para o alto, embora, depois de uma primeira
impressão, se percebesse que não tinha uma estatura tão impressionante como
isso. Poderia alinhar numa partida de basquetebol, mas seria sempre o jogador
mais baixo em campo. Era a sua atitude, as costas muito direitas, o queixo
erguido, a maneira como olhava as pessoas de cima, que criava a ilusão da
altura.


Patrício empurrou a porta envidraçada da loja, fazendo soar a sineta. Regina
veio do gabinete interior onde tinha a câmara escura e deu com ele, de mãos
atrás das costas, a observar atentamente uma Canon na vitrina das máquinas
fotográficas que estava na parede ao lado do balcão.


—   Olá,    Patrício.
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