O Último Ano em Luanda

(Carla ScalaEjcveS) #1

simples a sua lógica: havia três movimentos, o último a ficar de pé ocuparia o
Palácio do Governo no dia em que o derradeiro Alto-Comissário levasse
consigo a bandeira de Portugal e embarcasse para Lisboa.


De momento, os confrontos armados mais graves mantinham-se quase
todos fora da cidade de asfalto. Algures, no sombrio labirinto dos musseques,
o terror de uma guerra clandestina atravessava as madrugadas de Luanda. No
silêncio sepulcral das ruas quase desertas do centro da cidade ecoava o
tiroteio dos arredores. Nos bairros do Prenda, do Catambor, do Golfe, do
Sambinzanga, do Rangel, enfim, em todo o conjunto de musseques que
cercavam a capital dos brancos, contida pela tropa portuguesa, todas as noites
se travavam batalhas sem quartel, disputava-se o terreno, cimentavam-se
posições estratégicas. A guerra estava à porta e os brancos, preservados na
frágil segurança proporcionada pelo exército, só podiam imaginar os horrores
que se viviam nos subúrbios através do som das batalhas e dos relatos
confusos das notícias.


O Hotel Continental era um dos derradeiros bastiões do velho império, um
estóico exemplo de que era possível continuar a manter as boas maneiras e a
agir com a dignidade própria das pessoas de bem até ao fim. Nuno imaginava
o chefe de mesa da luxuosa sala de jantar do Continental a dobrar
cuidadosamente o seu uniforme, ao mesmo tempo que na Fortaleza de S.
Miguel se arriava e dobrava a bandeira nacional no último dia de soberania
lusa. A magia daquele lugar era que, uma vez no interior, ficava-se com a
impressão de que nada, mas absolutamente nada, mudara em Luanda.


No Continental comia-se um magistral bife chateaubriand com molho de
manteiga e vinho do Porto e grossas batatas fritas em palito. E,
evidentemente, a refeição ainda sabia melhor devido às inexcedíveis
amabilidades dos empregados, ao serviço requintado, ao ambiente refrescado
por um ar condicionado com a temperatura ao ponto. Dissesse-se o que se
dissesse, ninguém conseguiria convencer Nuno de que a informalidade
popular de uma boa tasca era mais agradável do que o rigor cerimonioso de
um restaurante de luxo. Naquele dia Regina fazia trinta anos e Nuno disse:
que se lixe o recolher obrigatório, vamos jantar ao Continental. Assim como
assim, ninguém respeitava o recolher obrigatório e o hotel era perto de casa,
de maneira que deixaram André com a prestimosa vizinha e lá foram. O
miúdo ficava bem entregue. Dona Natércia, com os seus modos delicados e a
sua vozinha afectada de menina pequena, era uma anciã dedicada. E, em boa
verdade, fazia-lhe bem a companhia do pequeno, pois, embora nunca se lhe

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