O Último Ano em Luanda

(Carla ScalaEjcveS) #1

12


A época das chuvas estava a terminar naquele final de Abril, mas os
caprichos meteorológicos não iriam poupar o monomotor solitário que voava
para Sudoeste, vindo do Luso, em direcção a uma base militar nas margens do
rio Lungué-Bungo. Ao fim de meia hora de voo, Nuno alarmou-se com as
nuvens escuras e densas que se agigantavam no horizonte. Cumulus-nimbus ,
pensou, aterrado com a perspectiva de as enfrentar. Aquelas nuvens eram o
pior pesadelo de qualquer piloto e este piloto não vai atravessá-las de certeza
absoluta,
decidiu assim que as viu. Pareciam montanhas impenetráveis e,
decididamente, ameaçadoras. Nuno sabia o que o esperava se desafiasse a
sorte e começou logo a ponderar alternativas. Voltar para trás era a atitude
mais sensata a tomar, mas... mas fez uma careta contrariada. Planeara
regressar a Luanda logo a seguir a esta última escala. Já não ia a casa há cinco
dias e, com a notícia da revolução em Lisboa e isso tudo, queria voltar o
quanto antes. Falara com Regina ao telefone nessa manhã e ela mostrara-se
nervosa e insistira muito em que voltasse. Prometera-lhe que iria só entregar
uma encomenda e seguiria direitinho para Luanda. E agora isto. Falhar a
entrega e perder o dinheiro da encomenda estava fora de questão. Regressar
ao Luso, esperar por melhores condições meteorológicas e quebrar a
promessa que fizera a Regina também não lhe agradava. Que fazer então?


Como ainda se encontrava a uma distância considerável, Nuno fez o avião
divergir para a esquerda, tomando um novo rumo para Norte. O seu objectivo
era afastar-se das nuvens à medida que progredia e dar uma espreitadela, a ver
se conseguia rodeá-las. Com um bocadinho de sorte... pensou, sem tomar
consciência de que ia direitinho a uma ratoeira.


Ajustou os cintos com força, de modo a ficar bem preso ao banco, e
agarrou-se ao manche com as mãos crispadas. Aproximara-se demasiado do
perigo, sempre a fazer desvios para a esquerda, e só tarde demais se
apercebeu de que já não havia maneira de lhe escapar. Agora é que é, disse de
si para si, ao dar-se conta de que se deixara envolver pelas nuvens e se
encontrava irremediavelmente cercado por aqueles terríveis monstros
enfurecidos. O DO-27 era um mosquito ridículo ao pé das paredes
enegrecidas que ia atravessar dali a segundos. Dir-se-ia que não tinha a menor
hipótese, tal era a desigualdade de forças, mas, por mais impossíveis que
fossem estas situações, uma pessoa nunca admitia que ia morrer e Nuno
preparou-se para o desafio sem se permitir pensamentos derrotistas.

Free download pdf