Um Homem Escandaloso

(Carla ScalaEjcveS) #1

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Se Cristiane tivesse ido bater à porta de João Pedro no dia em que regressou do Rio de Janeiro,
teria conhecido os filhos dele. Mas ela não o fez, embora estivesse ansiosa por o rever. Mais cedo,
Clara levara as crianças e João Pedro, que se esquecera de avisar Carol da visita dos filhos, não fora
a tempo de evitar que ela se precipitasse para a porta quando Clara tocou à campainha. Foi um
choque para Clara, ver Carol despontar à entrada, envergando apenas uma camisa dele que lhe caía
como um vestido amarrotado e esclarecedoramente decotado. Abriu-lhe a porta ainda estremunhada
do sono tardio e de cabelo desalinhado. Clara teve uma fúria, agarrou nos filhos pela mão e
conduziu-os bruscamente de volta ao carro, já a ponderar grandes batalhas judiciais para impedir o
pai de se aproximar das crianças. Mas João Pedro correu atrás dela e, depois de aturada
persistência, conseguiu persuadi-la a deixá-los ficar.


Respirou fundo, acabara por evitar o pior, pois suspeitava que, caso Clara tivesse levado os filhos,
haveria de passar muito tempo até poder voltar a estar com eles. Mas tinha a certeza de que não se
livraria de mais complicações. O incidente com Carol agravara o ressentimento dela e, se bem
conhecia Clara, depois daquilo, estava condenado a lidar com uma perpétua má vontade. Ou, como
ela diria, não lhe veria os dentes durante muitos e bons anos.
Quando voltou com as crianças para casa, João Pedro percebeu, aliviado, que Carol se refugiara
na casa de banho, de onde só saiu após tomar um duche rápido e se vestir de forma adequada.
Tomaram o pequeno-almoço na cozinha — os gémeos não desdenharam um prato de leite com
cereais, apesar de já terem comido em casa da mãe — e Carol pegou no bebé ao colo e revelou-se
encantadora com os gémeos. Estes aceitaram-na bem, com a candura natural de crianças de seis anos,
sem se questionarem sobre o papel daquela inesperada e simpática desconhecida na vida do pai. Foi
uma refeição demorada, nenhum deles tinha pressa para coisa nenhuma. João Pedro iria dedicar o dia
aos filhos e o seu único problema era o que fazer para os ocupar até os devolver a Clara ao fim da
tarde; Carol agendara uma sessão fotográfica com uma cliente para as quinze horas, de modo que
ficou até ao meio-dia, altura em que se despediu.
— Falamos mais logo? — perguntou a João Pedro.
— Sim, claro — respondeu ele.
Acompanhou-a à porta, trocaram um beijo rápido, um sorriso cúmplice, ela foi-se embora.


Desde a visita de João Pedro ao estúdio de Carol, tinham-se encontrado todos os dias na casa dele,
e já se riam por passarem a maior parte do tempo nus e enfiados na cama. Não obstante, em nenhuma
ocasião afloraram sequer o sentido que deviam dar ao que andavam a fazer. Pela ordem natural das
coisas, tanta intimidade exigia um esclarecimento entre eles, se estavam ainda a apalpar terreno, a
ver se o romance pegava, ou se era só sexo diletante. Mas, enfim, a consciência de que uma conversa

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