Um Homem Escandaloso

(Carla ScalaEjcveS) #1

43


Ao chegar à estação, tinha o pai à espera dela, com um sorriso débil e um cigarro no canto da
boca. Quando se aproximou dele, Carol assustou-se. Estava magro como nunca o vira, cadavérico
seria o termo mais adequado. Usava as suas velhas roupas ruçadas, que ela lhe conhecia, mas
sobrava-lhe pano como se tivesse passado a vestir um número acima do seu. Carol abraçou-o.
— Estás muito mais magro — comentou, de cenho franzido.
— Perdi um pouco de peso — disse o pai, confirmando a sua impressão.
— Está tudo bem contigo?
— Está, tudo óptimo.
Mas não estava. Nesse fim-de-semana achou-o abatido e envelhecido. Embora feliz por a ter de
novo em casa, era impossível não se notar o seu aspecto pálido e debilitado. Quase não comia e
ficava sentado no sofá, apático, de cigarro preso entre os dedos trémulos, que levava à boca
lentamente e com dificuldade. De resto, tudo o que fazia parecia exigir-lhe um esforço superior às
suas forças e, certamente por isso, não fazia grande coisa.
Carol aproveitou um momento a sós com a mãe para lhe perguntar o que se passava com ele.
— Estou preocupada com o pai — disse.
— Porquê?
— Então, tu não vez como ele emagreceu?
— Sim, tens razão. Sabes que voltou a vestir a roupa que já não lhe servia?
— Mas, não é só isso, o pai não está bem. Não come, não se mexe, fica parado naquele sofá. Não,
ele não está bem.
— São aqueles malditos cigarros — lamuriou a mãe. — Já lhe disse para os largar, mas ele não me
liga.
— Quantos cigarros é que ele fuma por dia?
— Sei lá, alguns três maços por dia, à vontade.
— E já foi ao médico?
— E ele lá quer ouvir falar de médicos, filha! Não conheces o teu pai?
— Mas devia.
— O teu pai nunca foi ao médico, desde que nos casámos. Minto, foi uma vez, há muitos anos, ao
hospital, quando se magoou no braço. Saiu de lá com o braço ao peito, a dizer mal dos médicos, e
nunca mais voltou.


De facto, Carol não se lembrava de alguma vez ter visto o pai doente, ou que tivesse ido a uma
consulta. Mesmo esse problema no braço de que a mãe falava acontecera, certamente, antes de ela
nascer, porque não se recordava de nenhum acidente. O pai sempre fora um tipo seco e bastante
saudável, a doente lá em casa era a mãe, embora Carol desconfiasse que ela exagerava as suas dores

Free download pdf