Um Homem Escandaloso

(Carla ScalaEjcveS) #1

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Uma ida por dia ao ginásio para participar na aula de Body Combat era algo que Clara não
dispensava, acontecesse o que acontecesse. As amigas chamavam-lhe maníaca, viciada e doida,
diziam que havia coisas mais interessantes para uma rapariga fazer, mas ela achava que não. Para
começar, as amigas de Clara eram bonitas e, aos dezanove anos, não precisavam de se esforçar muito
para terem um corpo lindo. Mas Clara era diferente, com aquela tendência para engordar precisava
de uma dieta inteligente e de muito exercício.
Clara tinha os seus predicados, era dinâmica, determinada, optimista, expansiva. Fazia falta,
animava as jantaradas de amigos e todos diziam que sem ela não havia festa, mas no final da festa ia
para casa sozinha. Não que nunca tivesse tido um namorado ou que fosse feia. Que diabo, ela tinha
um espelho enorme no quarto, não se podia dizer que fosse feia, mas também não chegava a ser
bonita, ficava-se pela mediania. Enfim, tinha os seus momentos. Faltava-lhe o jeito para se arranjar,
não havia maneira de se vestir bem, usava um corte de cabelo desastroso, esquecia-se de pintar as
unhas, no entanto, se não podia mudar de cara nem conseguia acertar nos mistérios da moda, pelo
menos podia manter-se em forma. Clara orgulhava-se de ter um belo corpo. As amigas desdenhavam
das suas idas ao ginásio, mas invejam-lhe os seios avantajados, a cinturinha de bailarina e o rabinho
empinado. As amigas eram loiras e vistosas, Clara era trigueira, de olhos castanhos e sobrancelhas
demasiado grossas, mas isso resolvia-se com uma passagem pelo cabeleireiro, se ela fosse alguma
vez ao cabeleireiro, e se tivesse sensibilidade para reparar nesses pequenos detalhes que faziam a
diferença.
Parvalhão foi a palavra que lhe ocorreu ao pensar em João Pedro. Um parvalhão emproado! E ela
que quisera tanto conhecê-lo, que deixara a imaginação ganhar asas ao antecipar a primeira conversa,
ao fantasiar as palavras sugestivas e cheias de subentendidos que trocariam nos dias seguintes nos
corredores da faculdade. Imaginara a aproximação dissimulada dele, os jogos de sedução deliciosos
que haveriam de lhes alimentar o desejo, os avanços dele, as cedências dela. E, afinal, não passava
de um parvalhão com a mania de que era bom.
Clara despediu-se de João Pedro com toda a naturalidade e nem por um segundo permitiu que ele
se apercebesse da sua desilusão. Beatriz cumprira à risca o combinado.
— Vais ter com ele, dizes-lhe que eu talvez o queira conhecer, eu vou a passar por acaso, chamas-
me, apresentas-nos e vais-te embora.
— Que tu talvez o queiras conhecer, é?
— Isso.
— E tu vais a passar por acaso?
— Exactamente.
— Estou a ver, tudo muito espontâneo.
— Tudo muito espontâneo.

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