Um Homem Escandaloso

(Carla ScalaEjcveS) #1

Voltou a descer vinte minutos depois, em pijama, abafada num roupão. Entretanto, João Pedro tinha
acabado por se desembaraçar sozinho, pusera o bebé no berço, deitara os gémeos e retirara-se para o
quartinho das tintas. A sala vazia e silenciosa pesou-lhe na consciência. Sentou-se na beira do sofá,
às escuras, ponderou ir ter com João Pedro ao ateliê, mas considerou que seria mais um passo em
falso, porque nunca ia lá. De modo que subiu novamente, passou pelos quartos das crianças para
verificar se estavam todos a dormir e, depois de confirmar que a paz descera sobre a casa, foi
também para a cama.
Antes de adormecer, Clara recapitulou mentalmente esse início de noite delicioso com o patrão.
Não era arrependimento o que sentia, era só o medo de se denunciar e ser apanhada. Haveria de se
divorciar em breve e não queria que as culpas do fracasso do casamento recaíssem sobre si. Porque
já se convencera de que não tinha qualquer responsabilidade. Era muito claro para ela que João
Pedro é que lhe falhara e, na altura certa, estava disposta a acusá-lo de tudo o que correra mal na
relação deles.


Clara sentia-se zangada por o seu casamento acabar assim, ao avesso dos sonhos que acalentara, e
tinha uma enorme vontade de castigar João Pedro, tanto mais que ele parecia não entender a
desilusão dela. Era desanimador, porque Clara tinha necessidade de que lhe fizessem justiça, de
modo a dar algum sentido ao fim do casamento e, para isso, entendia que era importante fazerem uma
espécie de julgamento informal, terem uma conversa franca, em forma de confrontação, que lhe desse
a oportunidade de apresentar os motivos do seu descontentamento e de esclarecer definitivamente as
razões que haviam conduzido a essa situação insustentável. Bem, mais uma vez, insustentável para
ela, pois, aparentemente, para ele não havia problema de maior.
Clara precisava de desabafar, de descarregar a frustração, queria atirar-lhe à cara todos os
defeitos dele que a irritavam supinamente, dizer-lhe a porcaria de marido que ele era. Mas, no final,
tiveram só uma conversa minimalista que se resumiu a uma descompostura sem réplica. Em suma,
Clara disse-lhe que já não o amava e não aguentava mais continuar a viver com ele, porque era o
mesmo que viver com um extraterrestre e ela esperava muito mais de um marido do que a presença
amorfa e distante de um homem que se limitava a vegetar pela vida sem objectivos e ambições. João
Pedro empalideceu, ouviu-a cabisbaixo, com uma cara de cãozinho triste de orelhas caídas, e não
rebateu nenhuma acusação, não a contrariou nem se defendeu. Clara anunciou-lhe que ia para casa
dos pais, provisoriamente, e levava as crianças, e a ele só lhe ocorreu perguntar-lhe se precisava de
ajuda a fazer as malas. Exasperada, Clara deu-lhe uma resposta torta:
— Só preciso que desapareças da minha vista — disse. E ele, petrificado, subiu ao primeiro andar
e foi sepultar-se no quartinho das tintas.


Dado que a entrada para a compra da casa onde moravam fora oferecida pelos pais de Clara e
como, actualmente, era ela que pagava ao banco as prestações da dívida remanescente, teria sido
mais óbvio que fosse João Pedro a sair, tanto mais que as crianças ficavam com ela. No entanto,
Clara tinha planos inconfessáveis e preferiu que pusessem o apartamento à venda e repartissem o
dinheiro. Na sua cabeça, já resolvera tudo: iria viver com o patrão e precisaria de uma casa maior.


João Pedro aceitou docilmente tudo o que Clara definiu, pois não se sentiu em condições de
regatear. Faltava-lhe a força anímica. Ela queria vender o apartamento, vendia-se o apartamento, ela

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