Um Homem Escandaloso

(Carla ScalaEjcveS) #1

Estrangeiros, que foram pessoalmente render-lhe as últimas homenagens com uma bateria de câmaras
de televisão no encalço.
Ao contrário de Clara, que saiu mais cedo do trabalho para ir à basílica confortar a alma,
sinceramente desconsolada com a perda do vizinho, João Pedro ficou em casa e só viu a reportagem
à noite na televisão. E ficou espantado com os encómios do primeiro-ministro. Não tinha a noção da
dimensão nacional do embaixador, da extraordinária consideração que o senhor simpático que vivera
na porta ao lado nesses últimos anos merecia de «uma nação reconhecida pelos altos e inestimáveis
serviços prestados por uma personalidade rara que honrou Portugal no mundo», como declarou o
chefe do executivo à televisão.
Nessa noite, sentiu-se um idiota chapado e ficou francamente preocupado com o seu
comportamento. Sou uma besta! , pensou, desanimado. Este episódio fê-lo compreender que andava a
perder muitas coisas importantes e que não podia continuar a contentar-se com a solidão. Estar bem
consigo próprio, convencendo-se de que podia dispensar o contacto social, era uma óbvia estratégia
mental para se preservar da extrema susceptibilidade. Receava fazer amizades porque isso implicava
dar confiança a desconhecidos e estes, em breve, iriam começar a dizer piadas sobre o seu aspecto
físico e sobre a sua natureza reservada, e João Pedro ficaria ofendido, mas não saberia como reagir,
pois nunca aprendera a lidar com essas situações, a não ser afastar-se e isolar-se. Por isso, só se
sentia tranquilo quando estava sozinho ou com a família. Os estranhos inquietavam-no, forçavam-no a
um estado de alerta permanente, e era psicologicamente extenuante lutar com os diabinhos à solta na
cabeça. Claro que o preço que pagava pelos excessos do isolamento a que se submetia
voluntariamente estava a tornar-se incomportável e era necessário fazer alguma coisa ou, um dia
mais tarde, não lhe restaria nada.


Perante este rebate de consciência, João Pedro anunciou a Clara que a acompanharia à missa de
sétimo dia do embaixador. Ele procurava, de algum modo, redimir-se, mas ela não percebeu a
contradição flagrante do marido. Ainda assim, preferiu acolhê-la como um sinal positivo e não fez
perguntas nem o recriminou. Porém, não pôde evitar um pensamento lúgubre, ocorreu-lhe que João
Pedro fora incapaz de lidar com o embaixador em vida, mas agora que ele estava morto já não lhe
custava ir à missa. Como se tivesse sido amigo dele! Era deprimente pensar que João Pedro se
entendia melhor com a morte do que com a vida.

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