Um Homem Escandaloso

(Carla ScalaEjcveS) #1

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Para João Pedro, o sonho da noite anterior ganhou uma nova dimensão quando saiu de casa pelas
dez da manhã. Foi como se atravessasse um portal invisível que lhe desse passagem directa do sonho
para a realidade, sendo esta última a continuação verdadeira do primeiro.
Junto à entrada do prédio estava estacionada uma camioneta de mudanças com as rodas em cima do
passeio. Três homens carregavam móveis e caixas de cartão para dentro, obrigando-o a desviar-se
para não ser atropelado por uma chaise longue que levavam para o apartamento vizinho.
Detrás da chaise longue surgiu uma loira expedita, envergando umas jardineiras por cima de uma
camisa de algodão leve, branca, com as mangas arregaçadas.
— Ponham a chaise longue na sala — ia ela a dizer aos homens. — Oh, olá!
João Pedro pasmou, a olhar para ela, incrédulo. Não é possível!, pensou. Por momentos, imaginou
que testemunhava uma aparição na forma de uma mulher invulgarmente bonita, daquelas que só
existem em sonhos. E seria o caso, não estivesse ele acordado!
— Olá...
Ela fez uma cara divertida, sorriu, brincou com os olhos, como se se penalizasse por aquela
confusão.
— Você deve ser o João Pedro — deitou-se a adivinhar.
— Sou — confirmou ele, admirado por ela saber o seu nome.
Ela esticou-lhe a mão.
— Eu sou a Cristiane.
— A filha do embaixador — balbuciou ele, a apertar-lhe a mão.
— Essa mesma!
A pele macia da mão de Cristiane transmitiu-lhe um calor agradável e, se ela não a tivesse
retirado, João Pedro teria tido muita dificuldade em largá-la.
— Vai mudar-se para cá?
— Vou. O meu pai deixou-me a casa e, como eu gosto dela, sempre poupo a renda da outra onde
vivo agora.
— Claro, faz sentido. O seu pai era uma simpatia, tivemos todos muita pena — ouviu-se João
Pedro a dizer.
O sorriso dela esmoreceu, tornou-se um sorriso triste.
— Ele contou-me que você é pintor.
— Sou.
— E dos bons.
— Ele disse isso? — estranhou.
— Disse.
— Não sabia que ele conhecia o meu trabalho.

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