Um Homem Escandaloso

(Carla ScalaEjcveS) #1

noites desde que ele decidira montar a cama de Cristiane na sala dela. A João Pedro ainda lhe
parecia irreal dormir com outra mulher na cama que sempre fora de Clara, mas precisavam de se
afastar do ar viciado e enjoativo das tintas por algumas horas, especialmente Cristiane, que não se
dava bem com o cheiro forte e, a espaços, tinha de sair da sala para desintoxicar. João Pedro
ponderou de olhos abertos o convite dela para a acompanhar na viagem ao Rio de Janeiro. A sua voz
ressoou na penumbra do quarto.


— Cristiane?
— Sim.
— Já andas a planear isto há quanto tempo?
— Isto, o quê?
— Levar-me contigo ao Rio de Janeiro.
— Não planeei. Lembrei-me agora.
— Porquê?
— Porque não quero ficar uma semana sem ti.
— Já passaste uma vida.
— Mas agora é diferente, habituei-me à tua companhia.
— Vais acabar por te fartar.
— Como sabes?
— Sei, porque até eu me farto de mim muitas vezes.
Ouviu-se uma gargalhada curta de Cristiane.
— És cómico — disse. Depois, enroscou-se toda nele e adormeceu numa grande paz.

João Pedro ficou sozinho com os seus pensamentos. Tal como outrora, nos primeiros tempos de
Clara, espantou-se com o entusiasmo de Cristiane. Habituei-me à tua companhia , a frase dela
impôs-se no seu pensamento e ele perguntou-se quem é que, no seu perfeito juízo, se habituava à sua
companhia.
Continuou a remoer esta perplexidade até depreender que Cristiane não se interessava meramente
pela sua pessoa — porque, convenhamos, em termos físicos ele era totalmente desinteressante —
mas pelo seu todo. Pelo seu todo devia-se entender o homem-pintor. Com efeito, o factor
determinante para João Pedro não ter sido liminarmente ignorado por Cristiane fora o seu valor
intrínseco enquanto pintor. Não se podia dissociar o pintor do homem, obviamente, mas era por
demais evidente que, ao ser avaliado por Cristiane, essa característica lhe conferia uma inestimável
valorização como pessoa. Tudo o mais vinha por arrasto. Tendo Cristiane uma alta consideração por
João Pedro, tornava-se fácil ela confiar nele, ter em boa conta as suas opiniões, escutá-lo com
atenção, apreciar o seu humor e, por fim, também o desejar fisicamente. Em suma, ele despertava o
interesse de Cristiane porque ela o considerava um homem excepcional que lhe transmitia uma
tranquilizante sensação de segurança. Quando ela adormecia enroscada nos seus braços era,
precisamente, essa segurança que procurava.


A compreensão — consciente ou instintiva — que Cristiane tinha de João Pedro evoluíra nas
últimas semanas. Tinham-se envolvido com uma intimidade galopante e inconfessável, que era um
segredo só dos dois, e hoje ela conhecia-o muito melhor. No início, esse conhecimento baseava-se só

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