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MARÇO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 17


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Reuters / Marco Bello

ção presidencial de 2012. O candidato
adotara então um programa de centro-
-esquerda: promover a iniciativa priva-
da e levar em conta as questões sociais.
A evolução não teve nada de anedótico
para alguns membros da oposição que
anteriormente tinham pleiteado a per-
da de peso de um Estado considerado
obeso, o retorno a uma economia de
mercado e a privatização da economia,
aí incluído o setor petrolífero. Enquanto
os radicais falavam apenas de proces-
sos judiciais contra membros do gover-
no, Capriles enfatizava a reconciliação e
a unidade nacional.


“BUCHA DE CANHÃO”
Em 2012, Chávez venceu com facili-
dade, com uma margem de 11%, mas
sua morte em 2013 precipitou outra
eleição, que Capriles perdeu por ape-
nas 0,7% contra Maduro. Essa sucessão
de fracassos, no entanto, fortaleceu o
domínio dos radicais. Novamente, Ca-
priles mergulhou na sombra de López
na esteira de disputas de tal forma vio-
lentas que a revista Foreign Policy acre-
dita que elas despertaram na mídia “a
mesma excitação que as séries nacio-
nais água com açúcar da televisão”.^7
Descrito por um telegrama do De-
partamento de Estado norte-america-
no em 2011 como “pronto a aguçar di-
visões”, “arrogante, vingativo e faminto
por poder”, mas dotado “de uma popu-
laridade a toda prova, de carisma e de
talento para a organização”,^8 López se
juntou ao partido Um Novo Tempo
(UNT), outra divisão do AD formada
em 1999, que se dedicou sobretudo a
soprar as brasas das mobilizações es-
tudantis do final dos anos 2000. Ele
fundou o VP em 2009. Forçado a renun-


ciar aos mandatos que exerceu após
acusações de corrupção, tornou-se o
opositor mais temido do campo cha-
vista, elevado à categoria de herói nas
alas mais radicais da oposição. Esse
status lhe rendeu as humilhações do
poder e uma pena de prisão. Em tal
contexto, Capriles representava aos
olhos dos mais desenfreados nada
mais que um melro um pouco insípido
comparado ao tordo López. Uma nova
convergência de entendimento, no en-
tanto, logo permitiria unir as duas po-
sições opostas, sob a forma de uma fu-
são das estratégias: uma insurreição
apoiada na reivindicação de um pro-
cesso eleitoral.
Nas eleições legislativas de 2015, a
MUD ganhou com 56% dos votos, ob-
tendo a maioria dos assentos. Mas, se
por um lado os membros da coalizão
entraram em acordo sobre a necessi-
dade de chegar ao poder, por outro eles
não elaboraram nenhum plano para
quando estivessem lá. Além de seu de-
sejo declarado de derrubar Maduro
“dentro de seis meses”, suas reivindi-
cações se resumiam à libertação de
“prisioneiros políticos” – em particu-
lar López – e à suspensão de alguns
dos programas sociais mais populares
do país. Em um contexto de caos eco-
nômico, escassez e insegurança de-
senfreada, as prioridades dos parla-
mentares de novo não foram ao
encontro daquelas da população. Ao
longo desse período, as pesquisas de
opinião atestaram a ascensão em po-
der dos “nem nem”, isto é, daqueles
que rejeitam tanto o poder madurista
quanto a oposição. Segundo as pes-
quisas, esse grupo representava quase
metade da população em 2017.^9

No mesmo ano, a MUD implodiu.
Maduro acabava de criar a Assembleia
Nacional Constituinte (ANC) para
contornar o órgão legislativo tradicio-
nal, nas mãos da oposição, cuja legiti-
midade ele contestava sob o pretexto
de suspeitas de compra de votos que
pesavam sobre três deputados do esta-
do do Amazonas. A ANC não foi reco-
nhecida nem pelos Estados Unidos
nem pela Organização dos Estados
Americanos (OEA). A situação parecia
favorável às alas radicais, que extraem
grande parte de seu apoio do exterior.
Mas cinco governadores eleitos sob a
bandeira da MUD finalmente presta-
ram juramento diante da nova assem-
bleia. Mais uma vez, apareceram as
fraturas na oposição.
As fileiras dos partidários da via
eleitoral aumentaram com o reforço
dos chavistas – às vezes ex-ministros
do presidente desaparecido – e, mais
genericamente, de militantes socialis-
tas que a corrupção, o autoritarismo e
o caos econômico levaram à ruptura.
Na eleição presidencial de maio de
2018, eles apoiaram a candidatura de
Henri Falcón. Este sofreu as mais for-
tes críticas até dentro da oposição:
María Corina Machado descreveu seu
esforço de conciliação como “repug-
nante e indigno”.^10 Maduro o venceu
com 68% dos votos e uma participação
raquítica de 46%. O novo fracasso dos
moderados deixou inebriados os radi-
cais, na primeira fila dos quais está um
certo Juan Guaidó.
A autoridade deste último na nebu-
losa da oposição permanece, no en-
tanto, frágil. Poucos dias antes do dis-
curso em que se autoproclamou
presidente, Capriles denunciou as ten-

tativas de passagem pela força de “al-
guns” membros da oposição, que se-
gundo ele pareciam estar dispostos a
transformar a população venezuelana
em “bucha de canhão”.^11 Depois de
uma união de fachada nos dias que se
seguiram ao esforço de Guaidó, os crí-
ticos endureceram novamente, uma
vez que o objetivo inicial, a rápida der-
rubada de Maduro, não foi alcançado.
Em 15 de fevereiro, um artigo do Wall
Street Journal constatou que, apesar da
convicção do VP e de seus aliados nor-
te-americanos de que “o regime do
presidente Nicolás Maduro entraria
em colapso logo que Washington co-
meçasse a privá-lo de seus apoios mili-
tares para apressar sua partida, as coi-
sas não seguiram esse caminho”.^12
Mais uma vez, a incapacidade da
oposição de chegar a um acordo sobre
uma estratégia de tomada do poder
colocou em segundo plano sua fraque-
za principal: o fracasso em propor um
projeto político coerente e capaz de
convencer a maioria dos cidadãos. En-
quanto Maduro ainda consegue mobi-
lizar parte da população, a persistên-
cia das lógicas de clã na oposição
compromete a busca de uma solução
pacífica para a crise atual.

*Julia Buxton é professora de Política Com-
parada da Universidade Centro-Europeia de
Budapeste, Hungria.

1 “Open letter by over 70 scholars and experts con-
demns US-backed coup attempt in Venezuela”
[Carta aberta de mais de setenta acadêmicos e
especialistas condena tentativa de golpe apoiada
pelos Estados Unidos na Venezuela], 24 jan. 2019.
Disponível em: <opendemocracy.net>.
2 Michael Selby-Green, “Venezuela crisis: Former
UN rapporteur says US sanctions are killing citi-
zens” [Crise na Venezuela: ex-relator da ONU diz
que as sanções dos EUA estão matando cida-
dãos], The Independent, Londres, 26 jan. 2019.
3 Ler Renaud Lambert, “Venezuela, les raisons du
chaos” [Venezuela, as razões do caos], Le Monde
Diplomatique, dez. 2016.
4 Kejal Vyas, “China holds talks with Venezuelan
opposition on debt, oil projects” [China mantém
conversações com a oposição venezuelana sobre
dívida, projetos de petróleo], The Wall Street Jour-
nal, Nova York, 12 fev. 2019.
5 Ler Alexander Main, “Au Venezuela, la tentation du
coup de force” [Na Venezuela, a tentação do gol-
pe], Le Monde Diplomatique, abr. 2014.
6 “Lineamentos para el programa de gobierno de
unidad nacional (2013-2019)” [Diretrizes para o
programa de governo da unidade nacional (2013-
2019)], MUD, Caracas, 23 jan. 2012.
7 Roberto Lovato, “The making of Leopoldo López”
[A construção de Leopoldo López], Foreign Policy,
Washington, DC, 27 jul. 2015.
8 Idem.
9 Yesibeth Rincón, “Crecen los ‘ni ni’ ante falta de
soluciones a crisis” [Crescem os “nem nem” diante
da falta de soluções para a crise], Panorama, Ma-
racaibo, 2 jan. 2017.
10 Orlando Avendaño, “Machado sobre candidatura
de Henri Falcón en presidenciales de Maduro: ‘Es
repulsiva e indignante’” [Machado sobre candida-
tura de Henri Falcón nas presidenciais de Maduro:
“É repugnante e ultrajante”], PanAm Post, 5 mar.


  1. Disponível em: <espanampost.com>.
    11 “Quién es el enemigo de la Asamblea Nacional? ”
    [Quem é o inimigo da Assembleia Nacional?], 13
    jan. 2019. Disponível em: <henriquecapriles.
    com>.
    12 David Luhnow e Juan Forero, “Risk of stalemate
    mounts in Venezuela” [Risco de impasse cresce na
    Venezuela], The Wall Street Journal, 15 fev. 2019.


Juan Guaido, líder da oposição venezuelana que se autodeclarou presidente do paístodeclarou presidente do país
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