CHARLOTTE

(Casulo21 Produções) #1

Faltavam 27 dias para que o desfecho da história de Charloe se
concrezasse, de acordo com a previsão médica, quando ela foi trazida para a
casa dos pais. Um novo quarto amarelo. Novas flores também a aguardavam.
A família já sabia. A cidade inteira comentava. A nocia espalhou-se
tomando dimensões cruéis.
"Nossa!!!" - espantava-se o guarda.
"Será?" - temia o varredor.
"Que horror!" - suspeitava a jovem vendedora.
"Souberam? A Dete ganhou uma menina que parece um bichinho." -
contavam as vizinhas.
Comerciantes, madames, pintores, manicures, senhoras e senhores fizeram
o folclore sobre o diferente. Queriam ver a criança. Iam até a casa onde Bernadete
confinava-se no quarto com a filha para estudá-la e muitas vezes voltavam sem
saciar a curiosidade. Bernadete não os atendia.
No toca-discos rodava triste o prato de vinil, espalhando notas de Strauss
pelo ambiente. A agulha arranhava sem dó o disco, acompanhando o compasso
lento da valsa que fazia a mãe embalar o bebê. Havia nessa dança mais do que
toque. Era necessidade de estar com aquela criaturinha pelo maior tempo
possível, aproveitar sua breve presença. Os dias estavam passando depressa
demais. A contagem era, duramente, regressiva.
Entre lágrimas e vociferações, Bernadete pedia perdão à filha por não ter se
preparado para ela e agora estar tão angusada senndo-a fugir dos braços: "Me
perdoa por achar que trinta dias é muito pouco. Não sei nada sobre . De repente
trinta dias pra é mais que trinta anos pra mim. Mesmo perguntando o porquê,

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