(Antfer) #1

  1. EXAME. AGOSTO 2020


EEditorial


POR


TIAGO FREIRE


Diretor

H


á um provér-
bio que diz
que nada é
certo, exceto
a incerteza. E
isso é indubitavelmente verda-
de neste verão quente de uma
pandemia destruidora. Ainda
assim, a natureza humana não
gosta do desconhecido, e as po-
líticas económicas precisam de
cenários. E, do Governo ao FMI,
passando pelo Conselho das Fi-
nanças Públicas e pelo Banco de
Portugal, há para todos os gos-
tos, ou desgostos. O executivo
agarra-se a um cenário terrível
de uma queda de 6,9% do PIB, o
que contrasta com a visão mais
partilhada de uma contração
ainda mais severa, à volta dos 9
por cento. Mas, na verdade, nin-
guém sabe. E isso é uma boa no-
tícia ou, se quisermos, um raio
de luz numa noite que ainda
será muito negra nos próximos
meses e, eventualmente, anos.
De acordo com um estudo
da Associação Missão Cresci-
mento, divulgado numa recen-
te conferência da EXAME e da
Ageas Seguros, tendo em conta
os efeitos da última crise econó-
mica e financeira, a atual pode
fazer desaparecer 200 a 400 mil
empresas e 800 mil a 1,4 mi-
lhões de empregos. É sempre
um desastre, mas a amplitude
do mesmo é muito grande. Por
outro lado, as revisões rápidas
de estimativas reforçam as di-
ficuldades de tentar chegar a
um cálculo fiável do impacto


sobre as contas públicas e ou-
tros indicadores. Pela simples
razão de nunca termos vivido
algo assim, um choque rápido
e profundíssimo, simultanea-
mente, na oferta e na procura,
e com reflexos em todos os nos-
sos mercados parceiros. O senso
comum diz-nos que é mau, mas
não pode dizer-nos quão mau
será, porque estamos a utilizar
lições numéricas históricas de
outras crises que são funda-
mentalmente diferentes desta.
Daí que eu tenha muita dificul-
dade em arriscar uma aposta ou
até em expressar uma opinião
acerca da queda. Dizerem-me,
agora, que vamos cair 7, 9 ou
15% diz-me muito pouco para
além do que já sei. Que está a
doer e vai doer. Com as expecta-
tivas no chão, há margem para
um brilharete final, ensina-nos
a experiência. O problema é que
as negras expectativas atiram a
confiança dos consumidores e
dos empresários para mínimos.
E isso é “bad for business”, sem
volta a dar.
A diferença mais essencial,
do lado positivo, desta crise face
às anteriores é que, sendo esta
“autoimposta”, tenderá menos
a pôr em causa todos os fun-
damentais anteriores, levando
anos a restruturar setores in-
teiros (como o financeiro, por
exemplo, com todas as implica-
ções associadas para a econo-
mia). Essa é, aliás, a razão pela
qual nos agarramos ao extraor-
dinário crescimento que nos es-

vacina, o seu estado de desen-
volvimento e as previsões de
chegada à nossa farmácia. Es-
tamos mais perto desse mo-
mento, é certo, e o trabalho da
comunidade científica mundial
tem sido extraordinário; mas
se nos dissessem, no início de
março, que em agosto ainda
estaríamos razoavelmente na
mesma incerteza, certamente
teríamos perdido a cabeça e o
sangue-frio.
Em última análise, nin-
guém sabe quando isto termi-
nará (apesar dos milhares de
especialistas em Epidemiologia
que, aparentemente, Portugal
tinha escondidos em ocupações
banais, a julgar pelo elevado ní-
vel de bitaite e convicção que
pululam nas redes sociais e
nas televisões). E é isso que nos
deve fazer começar a suspeitar
do maná que nos prometem já
em 2021.
Em todas as crises, a letra
mágica é o V. Este representa
uma queda vertiginosa, um ba-
ter no fundo, seguidos de uma
recuperação de igual vigor e
velocidade, devolvendo-nos ao

Um V com cara de U


Se nos
dissessem,
no início de
março, que em
agosto ainda
estaríamos
na mesma
incerteza,
certamente
teríamos
perdido a
cabeça e o
sangue-frio

pera em 2021. Isto seriam três
meses deitados ao lixo, com
todas as perdas que isso acar-
reta, mas depois era ligar o in-
terruptor e a máquina lá estava,
polida e pronta a voltar a carbu-
rar a todo o vapor. A questão é
que esse é um vício de raciocí-
nio que nos ficou dos tempos
das primeiras previsões de im-
pacto económico desta crise,
quando se dava por adquirido
que, depois de um “shutdown”
fortíssimo mas curto, a vida re-
tomaria a sua normalidade, no
tão ansiado “day after”. Infeliz-
mente, não será assim.
Este vírus está a provar ser
um bicho muito mais difícil
de dominar, de entender e de
eliminar do que inicialmente
se pensava. Todas as semanas
somos banhados com as águas
calmantes de notícias sobre a