Record - 20200801

(PepeLegal) #1

16 OPINIÃO
1 de agosto de 2020


PRESSÃOALTA


As cartilhas


e a sede de controlo


O FUTEBOL PORTUGUÊS PRECISA DE INICIAR UM NOVO CICLO, AO NÍVEL
DA COMUNICAÇÃO, MAS ISSO SERÁ PRATICAMENTE IMPOSSÍVEL
COM PINTO DA COSTA E LUÍS FILIPE VIEIRA NO PODER

çEm NOTA a fechar o artigo
da semana passada, escrevi: “Es-
pero sinceramente que Jorge Je-
sus e, até, Sérgio Conceição (con-
firmando-se a sua continuidade
no FC Porto) se unam no comba-
te aos tóxicos departamentos de
comunicação, empenhados em
transformar o futebol numa li-
xeira atómica. Com ela, o futebol
em Portugal nunca se desenvol-
verá nem será olhado com serie-
dade.”


Este é um tema crucial para o
processo de desintoxicação do
futebol português e é preciso
que se adquira uma consciência
colectiva no País, num quadro
de normalização das relações
entre o negócio futebol e a socie-
dade, com relevo para aquelas
que se estabelecem no âmbito
dos poderes públicos e privados,
de que esse processo de despo-
luição não corresponde a uma
luta específica contra o clube A
ou clube B; é uma necessidade,
no sentido de reposicionar o fu-
tebol nacional em relação ao fu-
turo, um futuro ainda por cima
cheio de incertezas, por via das
interrogações suscitadas pela
Covid.


Quer dizer, o futuro sugere
contenção, racionalidade, bom
senso, reformas — e a febre pe-
los títulos faz com que muitos
protagonistas continuem vira-
dos para a querela, para o ata-
que descabelado ou sub-reptí-
cio e para a mobilização dos
exércitos do mal.


O futebol sugere ainda as-
sumpção de responsabilidades
de todas as partes directa ou in-
directamente envolvidas no ne-
gócio e, nesse aspecto, entre ví-
cios, entorses e dinâmicas de
contra-informação muito difí-
ceis de contrariar, a partir das
quais tem valido tudo para des-
viar atenções, a comunicação
social tem, como sempre e agora
ainda mais, um papel relevante
a desempenhar.


Esta semana, a propósito, fo-
mos confrontados com uma
decisão histórica, cujo pontapé
de saída foi dado pela direcção
de informação da SIC e seguido
pela TVI: acabar com os progra-
mas de debate, com represen-
tantes do FC Porto, Benfica e
Sporting.


Antes da pandemia, o grito (clu-
bístico) já tinha tomado conta
de 90% das tribunas de debate
futebolístico em televisão, algu-


mas das quais haviam sido to-
madas, em casos facilmente
identificáveis, pelas direcções
de comunicação dos clubes, no
caso concreto com FC Porto e
Benfica a tentarem marcar pon-
tos nessa área.

Há um ano e meio, dei uma en-
trevista ao jornal ‘i’, na qual dizia
que “Os clubes têm sede contro-
lar a AR, os tribunais, a comuni-
cação social”, sem deixar de cha-
mar a atenção para o facto de
“alguns jornalistas ditos inde-
pendentes são fabricações dos
próprios clubes”. Dei a entrevis-
ta há um ano e meio, mas o meu
discurso neste capítulo há mui-
to que aponta para a tentativa
de controlo da opinião por parte
de alguns clubes de futebol, cuja
prática se agudizou a partir do
momento em que se descobriu
que essa tentativa de controlo
correspondia a uma visão orga-
nizada pelo departamento de
comunicação do Benfica e coor-
denada por Carlos Janela.

Quando nasceram as célebres
cartilhas, já o ambiente não era
o melhor e o logro estava identi-
ficado. Não me parece que haja
muitas dúvidas de que a trama
tem uma raiz político-socrática,
no sentido de tentar fazer pas-
sar para o espaço público, e no
futebol, realidades que afinal
não o são. Ninguém está numa
posição moral para reivindicar
qualquer superioridade, tal os
níveis de toxicidade produzidas
em ambas as centrais de contra-
-informação e propaganda,
uma vez que não existem quais-
quer tipo de dúvidas de que, no
polo oposto, também não exis-
tem escrúpulos.

De um lado, alguma subtileza e
sofisticação e, de quando em vez,
metralha; do outro, metralha.

[É bom relembrar, em forma de
parêntesis, que o director de co-
municação do FC Porto, ‘Jota’
Marques, tão pressuroso na de-
fesa da ‘verdade’, foi condenado

(ao pagamento de 523.000 € por
danos patrimoniais emergentes
e 1,4 M€ por danos não emergen-
tes, na sequência da divulgação
de correspondência, em proces-
so movido pela SAD do Benfica),
tendo o Tribunal do Juízo Cen-
tral Cível do Porto entendido
que Francisco J. Marques nunca
quis servir o interesse público
com a divulgação dos emails do
Benfica e a entender que a infor-
mação foi obtida ‘de má-fé’, sem
“qualquer interesse público”, e
por meio de “omissão dolosa, ci-
rúrgica e inteligente”. Foi ainda
considerado judicialmente que
“esta deturpação selectiva do
texto é pior do que mentira, pois
essa é facilmente posta em cau-
sa, a deturpação é bem mais difí-
cil de detetar e nunca porá em
causa a primeira impressão já
criada”. E mesmo que tribunal
tenha considerado que em 31
dos 55 emails divulgados pode-
ria existir interesse público, con-
clui, porém, que a forma como
foram tratados no Porto Canal

DINOSSAUROS. A comunicação dos clubes, com Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira, entre a metralha e uma cer-
ta sofisticação de matriz socrática, precisa de um novo rumo. De que serão feitos os ovos dos dinossauros?

— “sem contraditório, com
omissões, sem enquadramento,
sem tratamento jornalístico” —
levaram a que se decidisse pela
condenação].

Estas guerras intestinas entre
FC Porto e Benfica, com os res-
pectivos departamentos de co-
municação a afastarem-se cada
vez mais do seu objecto prima-
cial, já causaram danos irrepará-
veis ao futebol português e vão
continuar a causar, porque pe-
los vistos, viciados nestas dinâ-
micas, não são capazes de pro-
duzir jogo limpo, aceitando a re-
gra de que as instituições, nas
suas imperfeições e submetidas
à crítica (também) limpa, preci-
sam de cultivar autonomias e
mecanismos de escrutínio e re-
gulação, à margem do jugo ou da
influência dos clubes de futebol.

Bem sei que é muito difícil esta
mudança de mentalidades e
procedimentos num terreno
dominado por dois dinossauros
do dirigismo desportivo: Pinto
da Costa e Luís Filipe Vieira, tão
diferentes em muitas virtudes
mas tão siameses em tantos pe-
cados. Não vão ser eles, já se per-
cebeu, por razões distintas, os
motores da transformação, no
que diz respeito ao modelo de
comunicação que ajudaram a
construir. Todavia, mais tarde
ou mais cedo, Benfica e FC Por-
to — com o Sporting ainda na
corda bamba — vão conhecer
mudanças estruturais e gera-
cionais e, com as condicionan-
tes económicas que a pandemia
vai impor, este halo de mudan-
ça será imperativo.

Esperemos que, até lá, se faça
progressivamente o desmante-
lamento dos exércitos especiali-
zados em produtos tóxicos. O
futebol português merece que
os seus méritos sejam exaltados,
sem o contributo químico de
guerras e jotas. E é neste contex-
to que precisamos de Jorge Je-
sus, Sérgio Conceição e mais Ví-
tores Oliveiras. E de um País que
saiba honrar o valor da rivalida-
de e do desportivismo.

NOTA... DE ESCABECHE - A fi-
nal da Taça de Portugal desta
noite em Coimbra pode asseme-
lhar-se a uma ida a um restau-
rante, pedir carapaus de escabe-
che, e trazerem-nos apenas os
carapaus, com o argumento de
que o (molho de) escabeche aca-
bou. Pode ser bom, mas não é a
mesma coisa.
* Texto escrito com a antiga ortografia

RUI SANTOS

BRUNO COLAÇO
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