Luiz Henrique Mandeta - Um Paciente Chamado Brasil

(Antfer) #1

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A verdade é que eu já tinha notado um mal-estar com a minha presença. Era
como se eu representasse o carteiro que o presidente queria matar porque
levava notícia ruim. Ele não queria recuar.
Decidi então usar os contatos que eu tinha com alguns jornalistas para
pautar uma matéria que pudesse ajudar a mudar a conduta do presidente em
relação à pandemia. Conversei com a Eliane Cantanhêde, jornalista que
publica análises no Estadão e faz comentários para a GloboNews, e disse que
tinha interesse em que o conteúdo da reunião na biblioteca do Palácio da
Alvorada fosse vazado. Era uma forma de tentar colocar o Bolsonaro no
rumo certo. Mas eu não poderia aparecer como a fonte da matéria, ela deveria
guardar sigilo. Jornalista experiente como é, saberia dosar as informações no
texto para que eu ficasse resguardado. Pelo menos foi o que imaginei.
Contei para a Eliane tudo o que havia sido falado no encontro, falei da
projeção dos 180 mil mortos e de como Bolsonaro reagiu a tudo. Ela
publicou no Estadão de domingo (29) um artigo com tantos detalhes que
ficou na cara que eu havia sido a fonte.
Ela transcreveu diálogos como: “Se morrerem mil pessoas, isso seria o
correspondente à queda de quatro Boeings”, que foi uma frase dita pelo Moro
naquele encontro que teve comigo e Braga Netto na Casa Civil. Em seguida,
conforme suas “fontes”, eu disse: “Estamos preparados para o pior cenário,

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