Luiz Henrique Mandeta - Um Paciente Chamado Brasil

(Antfer) #1

Até que o Tarcísio me informou que estava agendada uma visita do
Bolsonaro às obras do hospital.^1 Pouco tempo antes o governador Caiado
havia criticado publicamente o presidente por causa da declaração de que a
covid-19 era “só uma gripezinha”. No dia 25 de março, o Caiado tinha usado
palavras muito duras numa coletiva de imprensa: “[Os profissionais] estão à
frente, colocando em risco suas vidas. Quando se escuta uma declaração
como essa, de dizer que isso é um resfriadinho, é uma gripezinha... Respeita!
Ninguém definiu melhor que o Obama: na política e na vida a ignorância não
é uma virtude”. Havia claramente uma ruptura nesse discurso, e alertei o
Tarcísio sobre isso, pois não me parecia a melhor ideia juntar os dois num
evento oficial.
Mas ele manteve o evento e disse que conversaria com o Caiado. Insisti:
“Tudo bem, mas para ir até lá ver um hospital. O Bolsonaro acabou de fazer
uma enorme grosseria com os governadores e vou aparecer com ele no
evento. A gente precisa combinar isso muito bem. Se ele fizer alguma coisa
fora do script vai me expor, vai expor o Caiado”.
Tarcísio me tranquilizou, disse que se responsabilizaria por tudo e que
seria bom para o presidente ver que o governo estava funcionando.
“Você conversa com ele. Ele pode falar com os outros governadores que
esse modelo pode ser repetido nos estados deles, é só atentarem para o preço,
para um hospital não ficar com um valor muito mais alto que o outro”, ele
ponderou.
Na véspera da visita, me perguntaram se eu iria no carro do Ministério da
Saúde ou com a comitiva presidencial. Perguntei se todos iriam de carro,
porque o trajeto durava uns quarenta minutos, uma hora, e eu já antevia que
iria juntar gente e que a comitiva iria parar para o presidente descer do carro e
falar com as pessoas, iria parar para tomar café. O Tarcísio achou melhor
então que fôssemos todos de helicóptero, saindo de manhã.

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