O Tempo e a Restinga - Time and Restinga

(Vicente Mussi-Dias) #1

36


A palavra karuara do Tupinambá, tal qual registrada no século XVI, apresenta
vários significados adquiridos durante a formação da cultura brasileira. O vocábulo que
persiste há mais de 500 anos sobreviveu ao desaparecimento da cultura Tupinambá
e passou a fazer parte do vocabulário de nossa língua (Laraia, 2009). Dentre os vários
significados, arrisco dizer que o que mais se adéqua a então fazenda Caruara é “vento
de trovoada que aparece em janeiro”, pois quem vive nesta região sabe que, no passado,
era uma realidade, ainda mais se chovesse no dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora
da Conceição.
A fazenda Caruara foi comprada para ser parte integrante do empreendimento
do Porto do Açu. A alteração do uso da propriedade deu-se pelo fato dela abranger o
mais importante remanescente de restinga conservada da região de São João da
Barra/RJ. Isso ocorreu por essa propriedade ser composta de duas grandes glebas
que totalizavam 4.235 hectares. Essa composição foge ao modelo de propriedade
que é frequente na região do entorno da foz do rio Paraíba do Sul, que em sua maioria,
constitue-se de pequenas e estreitas propriedades perpendiculares à linha de costa.
O antigo proprietário da Caruara teve um papel importante na conservação
de fragmentos florestais e dos ambientes associados às lagoas de Iquipari e Grussaí.
Apesar de ter implementado práticas de uso do solo comuns na região, que substituíam
áreas de restinga por pastagens e cultivos diversos, manteve a integridade de grandes
porções de restinga nos limites da fazenda, favorecida também pela grande extensão de
terras da sua propriedade.
Essa área mais conservada de restinga foi fundamental na definição de seu uso
perante o grande empreendimento que se constituía ao seu redor. Essa configuração
patenteou que aquela fazenda não tinha nascido para ser um empreendimento, e sim
uma unidade de conservação. Para respeitar a integridade do importante patrimônio
natural ali presente, fez-se necessária a remodelagem do empreendimento.
A destinação da fazenda Caruara para a conservação dos ambientes de restinga
percorreu um longo caminho, que teve a participação de atores públicos e privados. A
participação privada ocorreu pelo ato da empresa proprietária compreender a importância

de modificar os planos originais, criando
uma sustentação ambiental para o projeto.
Já a participação pública deu-se pelo
direcionamento durante o processo de
licenciamento ambiental do Porto do Açu.
A criação da reserva teve grande
participação da diretoria de biodiversidade
e áreas protegidas (DIBAP), do INEA e da
diretoria de sustentabilidade da empresa
responsável pelo empreendimento, que
também abraçou essa construção.
Para a abertura do processo
de criação da Reserva Particular do
Patrimônio Natural (RPPN), foram
exigidas inúmeras documentações. Este
fato demandou de todos os profissionais
envolvidos nesse processo, tanto os da
empresa como os do órgão público, um
trabalho articulado e incansável até a
criação da unidade, em julho de 2012. A
RPPN Fazenda Caruara, que possui em
seu território duas belíssimas lagoas que
constituem estruturas ecossistêmicas
representativas da região, é uma, e talvez
a única, unidade de conservação da região
norte fluminense totalmente regularizada.
Foi realmente uma oportunidade
profissional ímpar, e sinto-me grato por
ter participado dessa etapa. Acredito que

Implantação da RPPN Fazenda

Caruara

Infinito verde e azul
Green and blue infinity
Foto: Felipe Marauê M. Tieppo
Free download pdf