Um lugar bem longe daqui

(Carla ScalaEjcveS) #1

13.


Penas


1960


Magra, porém musculosa para os seus quatorze anos, Kya estava na praia à tarde
jogando migalhas para as gaivotas. Ainda não sabia contá-las; ainda não sabia ler.
Não sonhava mais acordada em voar com as águias; talvez, quando é necessário
arrancar o jantar da lama com as próprias mãos, a imaginação se achate e vire a de
um adulto. O vestido sem mangas de Ma agora ficava justo no seu busto e batia
logo abaixo dos joelhos. Ela imaginava que estivesse com a mesma altura da mãe,
ou até mais. Voltou para o barracão, pegou uma vara com linha e foi pescar num
matagal do outro lado da sua lagoa.
Bem na hora em que lançou a linha, um graveto estalou atrás dela. Virou a
cabeça para trás com um tranco, à procura. Uma pegada no chão da mata. Não
era um urso, cujas patas grandes produziam um ruído úmido nas folhas
decompostas; era um clang sólido nos arbustos. Então os corvos grasnaram. Corvos
guardam segredos tão mal quanto a lama: quando veem algo curioso na floresta,
precisam contar para todo mundo. Quem escuta é recompensado: ou é avisado
sobre a presença de predadores, ou então sobre a presença de comida. Kya sabia
que algo estava acontecendo.
Puxou a linha e enrolou-a na vara ao mesmo tempo que avançava em silêncio
pelo mato, abrindo caminho com os ombros. Tornou a parar, escutando com
atenção. Uma clareira escura — um de seus lugares preferidos — se abria como
uma caverna sob cinco carvalhos tão densos que apenas alguns filetes enevoados
de luz do sol penetravam pelas copas, iluminando poças luxuriantes de lírio-do-
bosque e violetas brancas. Seus olhos vasculharam a clareira, mas não encontraram
ninguém.
Uma forma então atravessou furtivamente um arbusto mais adiante, e os olhos
dela se fixaram lá. A forma parou. O coração dela acelerou. Ela se abaixou, e
correu agachada, rápida e silenciosa, até a vegetação baixa na borda da clareira.
Olhou para trás por entre os galhos e encontrou um menino mais velho andando
depressa pela mata, virando a cabeça de um lado para outro. Ele parou ao vê-la.
Kya se escondeu atrás de uma moita de espinhos, então se espremeu para
dentro de um túnel cavado por coelhos que serpenteava através de arbustos

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