COMO FAZÍAMOS SEM
A
ndar sem calças não foi exatamente
um problema durante bastante tem-
po. Quem vivia nas regiões mais
quentes do planeta, como os índios
que habitavam o território brasileiro, nem
precisou contar com as primeiras soluções de
aquecimento e proteção encontradas há 100
mil anos. Para espantar o frio e proteger o
corpo, usavam-se plantas e peles de animais
- estas também indicavam força e poder, em
sinal de vitória contra o bicho.
Mas apenas jogar alguma proteção por cima
do corpo não foi o suficiente. Por volta de 20
mil a.C., a necessidade de ter mais liberdade
de movimento levou ao aparecimento de agu-
lhas primitivas, feitas de ossos de animais, para
prender melhor ao corpo as peças feitas de pele
e fibras de plantas, como o algodão.
Mesmo com o aparecimento das agulhas,
as calças ainda demorariam a fazer falta. Povos
antigos da Europa, África e Ásia usavam ves-
tidos, e túnicas, enquanto egípcios e sumérios
se cobriam com retângulos amarrados ao cor-
po – de linho, lã ou algodão –, parecidos com
lençóis e tingidos com pigmentos naturais.
A necessidade de algo diferente apareceu
pela primeira vez entre os nômades da Ásia
Central, os primeiros a domesticar cavalos e
aprender a montá-los – o que já acontecia por
volta de 3.500 antes de Cristo, nas regiões das
atuais Ucrânia, Rússia e Cazaquistão. Vesti-
dos e túnicas eram pouco práticos e não ofe-
reciam proteção para as pernas durante lon-
gas distâncias percorridas a cavalo, muitas
vezes em clima altamente frio.
Em 2014, escavações feitas em túmulos do
cemitério de Yanghai, na China, próximo ao
Rio Tarim, revelaram os dois pares de calças
mais antigos de que se tem notícia, confeccio-
nados por volta de 1.400 antes de Cristo. As
calças foram encontradas junto a restos mortais
de dois homens, provavelmente pastores nô-
mades. Elas tinham pernas retas e virilhas
largas, e se assemelham a modelos usados na
equitação moderna. Foram costuradas a partir
de três pedaços de tecido de algodão – dois para
as pernas e um para o quadril e a virilha –, com
fendas laterais e cordas para amarração.
Da Bacia do Tarim, os nômades levaram
sua criação para o Oriente Médio e o Leste
Europeu. Na Idade Média, as calças se torna-
ram populares entre os bizantinos e logo fo-
ram adotadas, graças à praticidade, pelos ho-
mens na Europa Ocidental. Já era fim do
século 19 quando mulheres começaram a
vesti-las, não sem chocar a sociedade pela de-
finição que a peça trazia ao corpo feminino
- em Paris, uma lei de 1799, derrubada oficial-
mente apenas em 2013, proibia mulheres de
usar calças. Foi justamente uma francesa,
Coco Chanel, quem deu um passo fundamen-
tal para mudar a questão. A dificuldade em
cavalgar usando vestidos, vencida pelos ho-
mens tanto tempo antes, foi uma das motiva-
ções da estilista que trouxe a peça definitiva-
mente para os guarda-roupas femininos.
LONGOS TRAJETOS A CAVALO DEIXARAM A ERA DAS TÚNICAS PARA TRÁS
POR LETÍCIA YAZBEK
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