SALVADORES DE ROMA
A antiga capital do Império Romano passou a
abrigar uma comunidade cristã poucos anos
depois da morte de Jesus. Tudo indica que Pedro
e Paulo pregaram em Roma e lá foram executa-
dos, por volta do ano 64, numa perseguição
desencadeada pelo imperador Nero. Segundo a
tradição, Pedro teria sido o primeiro bispo da
cidade. Mas há indícios de que, por décadas,
Roma teve mais de um bispo por vez. Foi só por
volta do ano 200 que os cristãos romanos come-
çaram a ser regidos de fato por um chefe único- centralização que também acontecia nas ou-
tras comunidades cristãs.
A comunidade cristã de Roma era especial-
mente respeitada por abrigar o túmulo dos már-
tires Pedro e Paulo e por sua reputação de sem-
pre ter seguido a fé cristã original. Isso queria
dizer que os outros bispos sempre ouviam seu
companheiro de Roma com respeito especial,
mas não tinham a menor obrigação de obedecer-
-lhe. Ele já era chamado de papa – “pai”, em
grego –, mas o mesmo título era aplicado a che-
fes cristãos de outras cidades, como Alexandria,
no Egito, e Antioquia, na Síria.
Como o cristianismo ainda era uma religião
fora da lei no Império Romano, a inf luência dos
papas não se estendia à política. Isso começou
a mudar em 312, quando o imperador Constan-
tino resolveu aliar-se aos cristãos e liberar sua
religião. Ele queria usar a nova fé como fator de
unidade num império cada vez mais fragmen-
tado. Quem lucrou com isso foram os papas.
Primeiro, financeiramente: o imperador bancou
a construção de igrejas magníficas.
Já o segundo empurrão que Constantino deu
ao poder dos papas foi sem querer. Ele decidiu
construir sua própria capital, Constantinopla (a
atual Istambul, na Turquia), no leste do Império,
onde foi morar. A administração imperial ba-
seada em Roma passou a trabalhar em parceria
cada vez mais próxima com a Igreja – cujo local
mais venerado já era o Vaticano, colina onde
Pedro teria sido enterrado. Não demorou para
que os papas se tornassem as principais figuras
políticas de Roma, lado a lado com o Senado da
cidade. A inf luência dos pontífices passou a se
estender por toda a porção ocidental do Império.
No século 5, enquanto Constantinopla f lo-
rescia, os domínios do Império na Europa esta-
vam sendo atacados pelos invasores bárbaros,
que acabaram chegando à capital. Quando Áti-
la, rei dos hunos, ameaçou saquear Roma, cou-
be ao papa Leão I negociar com ele. Em 452,
ambos se encontraram em Mântua, no norte da
Itália. Há quem diga que o papa contou com a
intervenção milagrosa de Pedro e Paulo. Outros,
mais realistas, lembram que os hunos estavam
esgotados e que o papa ofereceu um polpudo
resgate. De qualquer modo, Átila deu meia-“Herege”: uma palavra mágica para
condenar inimigos. Ao se estabele-
cer como guardiães da fé cristã, os
papas atribuíram a si próprios o
direito de combater os hereges.
Em 1184, o Vaticano criou a célebre
Inquisição, órgão da Igreja especia-
lizado em perseguir – e até matar- aqueles que não seguiam à risca
os ensinamentos sagrados.
O problema era que, muitas vezes,
os critérios para definir quem era
herege tinham mais a ver com
política que com religião. Uma das
primeiras tarefas da Inquisição foi
enfrentar os cátaros, seita que havia
conquistado milhares de seguido-
res, em especial no sul da França.
Em 1209, o papa Inocêncio III
ordenou uma cruzada contra eles.
A batalha virou pretexto para que os
nobres do norte da França ganhas-
sem terras no sul e dominassem a
região, então praticamente indepen-dente do governo estabelecido em
Paris. No século 14, ao convencer o
Vaticano a declarar hereges os
Cavaleiros Templários, o rei Felipe IV
da França abriu caminho para se
apoderar dos bens e terras
daqueles monges guerreiros. E, no
século 15, a Inquisição serviu para
que os governantes espanhóis
perseguissem os judeus, esmagan-
do seu poder econômico e
homogeneizando a cultura do país.O LADO POLÍTICO DA INQUISIÇÃORELIGIÃO