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(Antfer) #1

Alfredo Attié - Império dos Sentidos


Banco Central do Brasil

Correio Braziliense/Nacional - Opinião
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021
Cenário Político-Econômico - Colunistas

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Autor: » Alfredo Attié Filósofo, Jurista e Escritor, é
Titular da Cadeira San Tiago Dantas da Academia Pau


A invasão de bárbaros, paramentados para um
espetáculo de rede social, marcou o início de 2021.
Talvez seja a repetição da história do império que cai
em decorrência de uma ação guerreira, que compõe
nossa imaginação de que vários povos teriam sido
responsáveis pela queda de Roma. Imaginamos esses
bárbaros com cabelos longos e corpos cobertos por
peles de animais, longos chifres ornando elmos,
gritando e atacando com armas rústicas.Não é preciso
esforço para remeter essa imagem à dos invasores do
Capitólio, centro simbólico da nova Roma, herdeira da
Antiguidade clássica latina, dotada de virtudes
republicanas louvadas por Cícero e da capacidade
guerreira de Júlio César. Como Roma, o Distrito de
Columbia foi atacado mais de uma vez desde a invasão
exitosa britânica de 1814. Muitos ataques decorreram
de protesto individual ou coletivo pelo alegado
cometimento de injustiças.O ataque por estrangeiros ao
Pentágono, em 2001 resultou na Guerra ao Terror,
acirrando nacionalismos, fanatismos religiosos,
suprimindo garantias e complicando o deslocamento


dos povos pelo mundo. Esses terroristas se diziam
falsamente herdeiros de outro império extinto, nascido
na Idade Média. Mas essa imagem bastou para a
construção da ideia do inimigo, cara ao pensamento
autoritário: diferente, externo e comprometido com
fanatismo que lhe dava contornos de unidade. A reação
conservou a imagem forjada da nação única,
defendendo-se por meio da retaliação ao território do
antagonista, com a retomada da potência guerreira.

Os Estads Unidos (EUA) se soergueram após tantos
ataques, assassinato de presidentes e líderes políticos,
por meio de reformas políticas construtivas ou
restritivas. Essa invasão recente tem, contudo, novo
significado e faz duvidar da eficácia da reação
americana.

Os bárbaros do Capitólio não eram estrangeiros, nem
fiéis de divindade estranha. Compatriotas, como os
oponentes da Guerra Civil do século 19 a quem se
concedeu, após a rendição, o tratamento de cidadãos.
Aos escravos, porém, os EUA não ofereceram a mesma
oportunidade. Libertos formalmente, ainda lutariam
muito por cidadania e respeito. Em 2020, o mundo
observou o quanto os afro-americanos permanecem
excluídos do pacto republicano firmado em 1776. A
verdade autoevidente da igualdade ainda não serve a
todos. Os protestos pela morte de George Floyd não se
fizeram invasão, mas caminhadas pelos espaços da
cidadania de pessoas de todos os credos e etnias, pelo
respeito a vidas humanas perdidas e ameaçadas pela
violência simbólica e real do preconceito.

Mulheres e homens que invadiram o Capitólio tinham as
feições dos WASP e empunhavam armas de fogo, o
que uma cultura perigosa e destrutiva ainda considera
um direito. Contra esses, a reação tem sido pífia, se
comparada à repressão de outros movimentos que, ao
contrário dessa invasão, fizeram-se em sua maioria
pacíficos e buscavam apenas garantir ou adquirir
direitos.

A invasão bárbara de 2021 foi violenta e sem
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