Clipping Jornais - Banco Central (2022-03-02)

(Antfer) #1

Só comoção não muda o mundo


Banco Central do Brasil

Jornal Folha de S. Paulo/Nacional - Cotidiano
Wednesday, March 2, 2022
Cenário Político-Econômico - Colunistas

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Autor: Jairo Marques


O presidente da Macedônia do Norte, dias atrás, tomou
uma atitude que fez coraçõezinhos mais frágeis ao
redor do mundo ficarem apertados e comovidos: pegou
na mão de uma criança com síndrome de Down, que
estava sendo hostilizada por sua condição dentro da
escola e havia sido afastada das aulas, e levou a
menina, pessoalmente, de volta ao local de estudos.


Com o ato, ele demonstrou que ali, na escola, era um
lugar de direito, de razão e de igualdade garantidos à
menina e que o país em que é líder vai defender a
condição dela ser quem é e de estudar junto com todos
até o fim.


Se tivesse preocupação semelhante, Bolsonaro não
faria outra coisa por aqui em sua administração. Com a
política excludente à pessoa com deficiência adotada
por ele -com aderência rápida de alguns setores sociais-
, voltaram a ser comuns no Brasil os relatos de
negativas de matrículas a crianças com condições
físicas, sensoriais ou intelectuais diferentes, assim como
se ampliaram os discursos de que é 'muito difícil lidar


com essas crianças especiais' que precisam ser
enfurnadas em cativeiros pseudo educacionais.

Talvez fosse necessário, em nosso país, uma marcha
pela inclusão, envolvendo milhares de pessoas, para
causar sensação semelhante à do líder europeu. Mas
também temos cá nossas demostrações emotivas com
as diferenças que mexem com o povo, como não?!

O apresentador do Big Brother, Tadeu Schmidt, fez um
gesto em Libras, a Língua Brasileira de Sinais, em um
dos episódios do reality, que repercutiu bonito nas redes
sociais e virou notícia com tons de mentalidade
inclusiva.

Não sabemos falar nem ao menos bom dia, na língua
usada por parte dos surdos, resistimos tentar ampliar a
comunicação mais próximas com essas pessoas, mas
adoramos saber que, no programa mais popular da TV
brasileira, um gesto diferentão repercutiu e mostrou de
relance que existe diversidade comunicacional na
humanidade. Mas acabou por ali, não vi janelas de
Libras na atração.

Em grande parte das vezes, por trás de um ato que vai
gerar enorme comoção, há alguém sofrendo pra burro,
sendo humilhado, sendo exposto, sendo estigmatizado,
sendo inferiorizado. Há alguém fazendo um apelo
desesperado, há alguém tentando sair da invisibilidade,
há alguém querendo algum tipo de salvação.

Uma amiga com uma doença rara, cadeirante, foi
retirada de um avião pela Polícia Federal por precisar
usar um respirador que a auxilia a sobreviver durante
um voo. Ela gravou tudo enquanto se consumia em
lágrimas e em dor de ser diferente, por se sentir
ultrajada. Comoveu um monte, espera-se reparação,
espera-se o aguardado novo olhar sobre àqueles que
não seguem padrões.

A gente precisa se cobrar mais por atitudes
transformadoras na vida dos outros, precisa se impor
mais coragem para fazer a diferença em vez de apenas
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