O Último Ano em Luanda

(Carla ScalaEjcveS) #1

sem freio do MPLA e da FNLA. O seu plano secreto era armar a UNITA*^5 , o
terceiro movimento de libertação e o único que não tinha armas, de forma a
impor um novo equilíbrio de forças que inibisse os instintos assassinos dos
outros dois. De modo que enviou um emissário a Lisboa sem dar
conhecimento do seu plano aos elementos do MFA, para pedir autorização ao
Presidente da República para o concretizar. O emissário regressou a Luanda
uma semana mais tarde. A autorização tinha sido concedida.


A situação foi explicada pelo agente Cardoso que, ultrapassada a
agressividade inicial, empregava agora frases sucintas e claras ao mesmo
tempo que ia fumando cigarros, uns atrás dos outros, sem se lhe notar
qualquer emoção na voz, pois tratava-se de expor um plano militar e o
homem era um operacional que recebia ordens, executava-as e ponto final.


— A primeira entrega de armas foi realizada sem problemas — disse —,
mas a segunda já não se concretizou por dificuldades operacionais. O plano
foi abortado. Contudo, há pessoas que pretendem prossegui-lo sem o
envolvimento directo das FAP.


— E querem que seja eu a entregá-las — concluiu Nuno.
— Exactamente.
— Porque é que o plano foi abortado?
— Não estou autorizado a revelar — foi a resposta seca.
Nuno quedou-se em silêncio, ponderou a questão. Não lhe agradava a ideia
de alinhar num plano sem ter acesso a toda a informação, sem conhecer as
variáveis todas. O agente Cardoso interrompeu-lhe o raciocínio para lhe falar
do pagamento pelos seus serviços. Disse-lhe um número. Nuno ouviu-o e não
fez qualquer comentário, manteve-se impassível, esforçou-se para não revelar
que estava impressionado com a cifra em questão. Mas o outro era esperto e
sabia jogar aquele jogo melhor do que ele, sabia exactamente o que Nuno
fazia para ganhar a vida durante a guerra, conhecia o seu passado mercenário
e não tinha a menor dúvida de que um número tão alto constituía um
incentivo muito grande para o levar a aceitar a missão. Afinal de contas, a
proposta era irrecusável. Talvez não o fosse para um simples proprietário de
um avião de recreio que só o pilotasse pelo gozo de voar, mas, para um
aventureiro desempregado e habituado a correr riscos, a tentação era
esmagadora.


—   Quantas viagens?    —   quis    saber   Nuno.
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