O Último Ano em Luanda

(Carla ScalaEjcveS) #1

nessa aventura? Não, pensou, não havia a menor chance de brincar com a
sorte duas vezes no mesmo dia.


Forçou uma volta apertada pela esquerda, ultrapassou a base, executou a
manobra como se fosse aterrar mas, no último momento, abortou, ganhou
altitude, fez nova viragem brusca pela esquerda, nova aproximação, outra
passagem baixa. Lá em baixo não aconteceu nada de especial. Um ou dois
curiosos saíram do edifício principal para verem o que é que ele andava a
fazer. Mas não estava a conseguir chamar a atenção da base, pelo menos para
o que pretendia. Decidiu fazer mais uma passagem baixa, executou a
manobra, percebeu horrorizado que os soldados acumulados no exterior do
edifício — agora eram mais — batiam palmas, pensando que Nuno se exibia
para eles. A algazarra parecia muita, mas ninguém dava conta do perigo.
Interpretavam mal os sinais, lá está o maluco do costume a fazer acrobacias.
Porra, não é nada disso! Cambada de anormais, acordem!


Pronto, decidiu, tinha feito o possível para os alertar. Aterrar é que não, isso
não, não podia fazer mais nada, eles que se desenrascassem. Ganhou altitude,
tomou rumo Nordeste, afastou-se.


Imaginou os homens lá em baixo a perguntarem-se onde é que o gajo vai?
O tipo é doido, vem até aqui, faz umas manobras e vai-se embora sem
aterrar?!
De facto, não tinha lógica nenhuma, pensou Nuno, era de doidos,
não era? O que, vendo bem, até era bom, pois talvez os levasse a pensar
melhor. Pensem, meninos, pensem. Porque é que eu não aterrei? Porque há
perigo, seus estúpidos, anormais, burros do caralho!,
deu consigo a berrar e
aos murros no painel de instrumentos, frustrado, furioso, assustado, sabendo
que não conseguiria voltar as costas e abandoná-los. Era uma cobardia e Nuno
não conseguiria viver com uma coisa daquelas na consciência. Merda!, gritou,
fora de si, ao mesmo tempo que fez mais meia volta apertada e, reagindo a um
impulso desesperado, dirigiu-se para a zona onde localizara os guerrilheiros.


Em menos de um minuto estava em cima deles. Desta vez a força atacante
pareceu-lhe ainda mais numerosa, e mais apressada, naturalmente. Os
primeiros guerrilheiros já se embrenhavam na área de floresta cerrada, a
última etapa antes de atacarem. Nuno concentrou-se nos homens mais
atrasados. Eram às dezenas e avançavam separados uns dos outros por alguns
metros, espraiando-se pelo terreno ao longo de uma centena de metros. Nuno
executou uma volta larga, baixou repentinamente o nariz do avião, apontou
para o centro do grupo e picou sobre ele, a pensar só me faltava acabar a
carreira de piloto como
kamikaze.

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