Um Homem Escandaloso

(Carla ScalaEjcveS) #1

situação. Estava tramado e bem tramado. Olhou para o livro do mestre Theophilus Engelbrecht,
atentou no título, Caos: O Motor do Progresso, pensou que o caos já ele o tinha bem instalado, só lhe
faltava o resto. Tinha de se reinventar, definitivamente. Mas como?


Embora João Pedro considerasse que o grande Theophilus Engelbrecht não passava de um filósofo
de bairro
trampolineiro, que tentava impingir a donas de casa incautas e a reformados ociosos o seu
livrinho banal — era só uma edição de autor muito mal amanhada — como se fosse a teoria do
século, o facto é que a dissertação do mestre teve o efeito clarividente de o despertar da
estupefacção.
Ao fim da noite, João Pedro adormeceu na sua enorme e despovoada cama de casal com a mão
pousada sobre o Caos: O Motor do Progresso. Leu as últimas páginas já de olhos a fecharem-se e o
livro acabou caído em cima do peito e os óculos que usava para ver ao perto a escorregarem-lhe do
nariz. Nessa noite, teve um sonho estranho. Apesar da sua apresentação desmazelada de sempre,
estava rodeado por duas jovens mulheres belíssimas. E, ainda mais singular, ele, ou, enfim, o outro
ele, conversava com elas com uma desenvoltura impensável. João Pedro, ou melhor, a representação
mental do inverso dele, sentava-se largamente no confortável sofá da sala e passava os braços por
cima dos ombros das duas mulheres que aninhavam a cabeça em cada lado do seu peito. Ele
afundava à vez o rosto nos cabelos finos, lisos e compridos das duas. Cheiravam tão bem.
Contemplou desvanecido as pernas nuas e perfeitas delas a subirem maliciosamente por cima das
suas. As raparigas vestiam shorts muito resumidos e uma delas uma t-shirt apertada que lhe realçava
os seios e nem chegava a tapar a barriga; enquanto a outra trazia uma camisa decotada até ao umbigo.
À frente do sofá, havia uma tela gigante onde estava representado o retrato dos três: João Pedro entre
as duas mulheres, ambas nuas e de uma beleza rara. André, o marchand , saltitava pela sala, em redor
deles, extasiado, dando gritinhos, muito excitado. Era brilhante, exclamava, dizendo que João Pedro
ia a caminho da estratosfera do sucesso! A um canto da sala, sentada muito hirta numa cadeira, Clara,
de braços cruzados, amuava. E, em pé atrás do sofá, o grande mestre Theophilus Engelbrecht bradava
sem parar: «É uma barrbárridade! Há que prrocurarr caminhos, há que prrocurarr!»


Ao despertar desse sonho insólito, João Pedro teve uma desilusão tremenda por descobrir que
nada daquilo era verdade. Sonhador, tomou um pequeno-almoço nostálgico na cozinha, a recapitulá-
lo. Tendo a imagem das raparigas ainda nítida na cabeça, sorriu como um tolo ao lembrar-se com um
certo deslumbramento como eram grandes as mamas delas...
Poder-se-ia pensar que, se, eventualmente, o sonho fosse o reflexo de uma epifania, e se João
Pedro quisesse interpretá-lo para retirar dele algum significado revelador, então, estava longe de se
concentrar no seu aspecto mais profundo, mas, por outro lado, era possível que a imagem marcante
das raparigas tivesse evitado que ele se esquecesse do que sonhara. E isto já foi compensador,
porque, normalmente, ele não conseguia lembrar-se de nada quando acordava.
É provável que aquele sonho bom tivesse contribuído para João Pedro ficar muito bem disposto o
resto da manhã. Subiu ao primeiro andar, vestiu-se para trabalhar e foi cheio de entusiasmo para o
ateliê rodear-se dos seus quadros, do cheiro das tintas, de coisas bonitas! Sentou-se no banco alto à
frente da tela, observando a representação inacabada de um porto de pesca, que estava ali esquecida
há uns dias, e começou a misturar umas cores na paleta à procura da tonalidade escura e carregada
do mar encapelado de Inverno. Mas logo reparou no sol poderoso que irrompia pela vidraça da

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