Um Homem Escandaloso

(Carla ScalaEjcveS) #1
— Quem é?!
Cerrou os olhos, contrariado.
— Sou eu, vizinha, o João Pedro — disse a medo.
— Só um momento.
Esperou. Ela foi e veio, demorou-se alguns segundos, que a ele pareceram muitos.
— Vou abrir a porta, mas não entre logo que não estou apresentável — avisou-o.
— Está bem.
A porta abriu-se, ficou encostada.
— Já pode entrar! — ouviu-a gritar lá do fundo.

João Pedro encostou a ponta dos dedos à porta, empurrou-a só um pouco, com cerimónia, enfiou a
cabeça e espreitou. Cristiane não estava à vista. Entrou, fechou a porta, dirigiu-se para a sala. Teve a
impressão de que esta era muito maior do que a sua. A ilusão devia-se à sala dela ainda não ter
móveis. Só havia um conjunto de caixotes de madeira empilhados no centro e, ao lado, uma chaise
longue
burlesca, clássica mas com um toque moderno, de cor prateada e forrada de veludo roxo. A
sala assim, despojada de mobília, evocou-lhe um estúdio de dança, com a sua tábua corrida, as
janelas altas ao fundo.
Enfiou as mãos nos bolsos das calças, ensaiou um assobio, fez caretas ridículas com a boca,
sentia-se ridículo ali sozinho. Procurou desesperadamente uma justificação coerente para lhe ter ido
bater à porta. Ela haveria de entrar na sala a qualquer momento e perguntar-lhe-ia ao que vinha e era
bom que tivesse uma resposta razoável para lhe dar, algo simples, que não incluísse sonhos eróticos,
talentos obscuros, qualidades prescientes, enfim, nada que desse a ideia de ser um doido varrido.
Tinha a desculpa de ser artista, mas convinha não parecer totalmente alienado.


Cristiane entrou na sala a sorrir. Vinha descalça, vestira calças de ganga justas e uma camisa
branca com muitos botões por apertar e sem sutiã, conforme João Pedro não iria ter dificuldade em
confirmar dali a pouco. Trazia o cabelo molhado, escorrido, e uma escova na mão.
— Desculpe tê-lo deixado à espera, mas acabei agora de tomar banho e não estava vestida.
João Pedro sorriu, abanou a cabeça, ergueu as mãos.
— Tudo bem — disse, a imaginá-la a abrir-lhe a porta nua.
— Estava enrolada numa toalha — acrescentou ela, adivinhando-lhe o pensamento.
Ele percebeu, sentiu o rosto a ficar vermelho, voltou-se de costas para ela, fingindo que admirava
a sala vazia.
— Tem aqui muito trabalho ainda — disse.
— Nem me fale nisso, passei a manhã a arrumar e parece que está tudo na mesma.
— Vai aos poucos.
— Sim.
— Se calhar, não vim na melhor altura.
Ela inclinou a cabeça de lado, pôs-se a escovar o cabelo.
— Não faz mal, também já estava a precisar de descansar um bocado.
— Vim só saber se precisa de alguma coisa.
— Ah, obrigada, a não ser que conheça algum truque mágico para arrumar tudo de uma vez —
disse Cristiane, a brincar.

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