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JornalValor--- Página 12 da edição"23/03/2020 1a CAD A" ---- Impressapor ccassiano às 22/03/2020@17:06:


A12|Valor| Sábado,domingoe segunda-feira, 21, 22, 23 de marçode 2020


Opinião


NãosedevepoupargastosparacapacitaroEstadoa


protegerasaúdedapopulação.PorL.C.Bresser-Pereira


Salvar as pessoas, as


empresas e o emprego


O governo deve garantir


a solvência das


empresase o emprego.


Nãoimporta o custo do


ponto de vista fiscal


H

á duassemanasa eco-
nomistaLedaPaulani
afirmouque a crisedo
coronavírusseriamais
grave do que a crise de 2008.Mi-
nhareaçãofoium“talvez”.Talvez
viessea ser,mas eu não estava se-
guro.Agora,estou.Associadaà
pandemia há uma gravíssima
crise econômica em formação
que levaráao desemprego eà
quebradas empresasde todoo
mundo,ou, pelomenos,àuma
fortereduçãode suas receitase
dosseuslucros.
Asempresasdeserviçoestãopa-
rando porque todosos eventos
que puderem ser adiados estão
sendo adiados. As famílias, amea-
çadaspelo desemprego,estão re-
duzindoas suas compras. As em-
presascomerciaisestãoenfrentan-
doumafortequedadevendas,eas
empresas industriais, mesmoque
não tenhamsido obrigadas a re-
duziraproduçãoparaevitarapro-
pagação do vírus, não têm alterna-
tiva senãodiminuir sua produção
dadaafaltadedemanda.
Na China,ondeprimeiro apa-
receuo coronavírus,houveuma
prática bem-sucedidade isola-
mentoou confinamentosociale
a expansãoda doençapareceter
sido controlada, masdiversos
estudos indicam que nos pri-
meirostrês mesesareduçãoda
produçãonaquele país foi de
30%.Émuita coisa.Mesmoque
façamosa previsãootimistaque
no segundotrimestrea produ-
ção ficaráno níveldo ano ante-
rior,en os dois últimostrimes-
tres aumente8% a cadatrimes-
tre, aquedado PIB chinêsem
2020 seráde 8% (-12+2+2).É
muitacoisa,e desconfioque es-
tou sendomuitootimista.
Que fazerdiantede um qua-
dro comoeste?No planoda saú-
de éoisolamento e oaumento
urgente da capacidadedo SUS
de enfrentarapandemia.É não
poupargastosparadar capaci-
dadeao Estadode protegera
saúdeda população.Eno plano
econômico?Não podehaver ne-
nhumadúvidaarespeito. Ogo-
vernodevegarantira solvência
das empresase o emprego. Não
importa quanto custedo ponto
de vista fiscal.
Umacrisefinanceira comoa
Crise Financeira Global de 2008
resultou da quebra de alguns
grandes bancoseempresas de se-
guroedemuitasfamílias—todos
porque haviamse endividado de
maneira irresponsável.Agora
não há irresponsabilidade de al-
gunsagentes econômicos situa-

dos em posições-chave na econo-
mia, mas há a perspectiva de gra-
ve reduçãodasvendasemaior re-
dução dos lucros, acompanhada
deforteaumentododesemprego
porque amelhordefesa que aso-
ciedadetemcontraovíruséoiso-
lamentodaspessoas.
A economia mundial deverá
ser praticamente paralisadapor
pelomenos três meses, mas os
custosdas empresascontinuarão
a ser incorridos, não apenas os
custos fixos,mas também grande
partedoscustosvariáveisprecisa-
rão ser mantidosdado o objetivo
de manter o emprego.Emmo-
mentoscomoeste, vemosquão
importante éter um Estado forte
e capaz. E saber usá-lo. Ogoverno
jádecretousituaçãodecalamida-
de pública. Fezbem. Isto olibera
dos limites legais estabelecidos
para o seu gasto. Está prometen-
docréditoparasasempresas.

Isto é omínimo.Mas em um
quadro completamente novoco-
mo esse que o mundoeoBrasil
estão enfrentando, ogoverno
precisatambémpensarde ma-
neiranova.Agoraoque ogover-
no brasileiro, como,aliás, os go-
vernosde todos os países,deve
fazeréusar seu Estadoparasal-
var as pessoasda morte,para sal-
varasempresasdaquebra,epara
salvaros empregos. OEstadoem
cadanaçãotem esse tríplicesal-
vamento comocapacidade eco-
momissão.Seugovernonãopo-
de ficarcalculandoqualserá o
impacto de cadamedidaque to-
menadívidapública.Elaaumen-
tará agoracomoaumentou em
todoomundoem2008.
Não bastaaumentaro crédito
para as empresas.No seu último
artigonoValorMartinWolf rela-
ta a propostade doisnotáveis
economistas,EmmanuelSaeze
GabrielZucman, da Universida-
de da Califórnia, Berkeley. Para
eles “a formamaisdiretade pro-
ver [...] seguroéter um governo
atuando comocomprador de úl-
tima instância. Se o governo
substituirtotalmenteademanda
queseevapora,cadaempresapo-
de continuarpagandoseus tra-
balhadoresemantendoseuesto-
que de capital,comose estivesse
operando[...]normalmente”.

Para colocarem práticauma
políticacomoessa é preciso ha-
ver coordenaçãocomoBanco
Central.Este já reduziuos juros,
efoi importanteque ofizesse,
mas há uma segundacrise,mais
precisamente,ameaçade crise
que não podeser desconsidera-
da. Antesdo coronavírusolibe-
ralismo econômico radicaldo
governo, alémde causarestag-
naçãoeconômica, já nos amea-
çava com crisefinanceira —com
acontinuidadeda crise financei-
ra de 2014.Esta foi umacrisefi-
nanceira interna; foi definida
pela faltade expectativasde lu-
cro das empresaseparalisação
do créditoprivado.
Agoraé ocréditoexterno que
estádiminuindo, comovemos
pela retiradamaciçade recursos
estrangeiros da Bolsade Valores
brasileira, enquantoodéficitem
conta-correnteaumentaprinci-
palmente devido ao aumento
dos juros,dividendoseserviços
pagosao exterior.Éacontada
desnacionalizaçãoque nos está
sendocobrada.Comoaumento
do déficitem conta-correnteea
diminuição dos financiamentos
externos, o dólaralcançaacada
diaumnovorecorde.
Umacrisefinanceiracrônica?
Pode parecerestranho,mas em
dezembro de 1998 desenca-
deou-seuma crise financeira que
se tornoucrônica,só tendoreal-
menteterminado com a crisefi-
nanceirade dezembrode 2002.
Destavez, acrise financeira de
2014 earecessãode 2015-
causarama quedados salários,
da inflaçãoedos juros,mas acri-
se não chegouàsua soluçãopor
faltadedemanda.
Os paísesricosestãotomando
medidasdeemergênciaparaen-
frentarapropagação do vírusea
recessãoprovocada pelaparali-
saçãodas empresas. O atrasoda
Itálianestepontoestátendocon-
sequênciastrágicasparao país.
Comováriosgovernadoresjá se
deramconta,o Brasiltambém
não podese atrasar. Mas seus po-
deressão limitados. Alémde en-
frentaro coronavíruse enfrentar
a própriarecessão, o Brasilpreci-
sa recuperar a confiançaexterna,
que foi destruídaneste último
ano.Éprecisoqueoscredoresex-
ternosvejamque nós também
estamosfazendocom responsa-
bilidade anossa parteno enfren-
tamentodacrise.

Luiz CarlosBresserPereira,
ex-ministro da Fazenda,é professor
emérito da FGV.

SILVIA ZAMBONI/VALOR

BC acertaao seguir cartilha do


regime de metas de inflação


A


pandemiadocoronavíruscoloca
àprova,maisumavez,oregime
demetasdeinflaçãocom
câmbioflutuante.Embora,no
detalhe,aatuaçãodoBanco
Centralsempreestejasujeitaacríticas,os
sinaissãodequeessearcabouçoestá
permitindoumarespostaadequadaàcrise.
Nasemanapassada,oBancoCentralcortou
osjurosbásicosem0,5pontopercentual,de
4,25%aoanopara3,75%aoano.Muitos
economistasachavamqueserianecessário
cortarmaisainda—talvezumponto
percentual—paraatenuarafortequedada
inflaçãoquedeveráocorrercoma
desaceleraçãoeconômica.Outrosachavam
que,numcenárioaindabastanteincerto,em
queédifícilestimarosimpactosdacrisenos
índicesdepreços,oBCdeveriasemovercom
umacautelaaindamaior.
Ambossãopontosdevistalegítimos,jáque
focamnoqueéoobjetivodataxadejuros:
cumprirasmetasdeinflação,coma
preocupaçãosubsidiáriadesuavizara
oscilaçãodoProdutoInternoBruto(PIB).O
quepareceequivocadoélimitarousoda
políticamonetáriaparaevitarumamaior
depreciaçãodocâmbio.
Ataxadecâmbioimportadentrodo
regimedemetasdeinflaçãoapenasna
medidaemqueesseéumcanalde
transmissãodapolíticamonetáriaetambém
umdeterminantedainflação.Masosjuros
nãodevemdeixardemirarainflação,
minimizandoaflutuaçãodoPIB,apenaspara
estabilizarataxadecâmbio.
Oqueocorreunosdiasseguintesàdecisão
doComitêdePolíticaMonetária(Copom)do
BancoCentralmostraqueessesreceioseram
exagerados.AcotaçãododólarchegouaR$
5,20naquinta-feira,masnumdiadeaversão
arisconosmercadosglobais—edepois
cedeu.Orealnãofoiumdestaquenegativo
naqueledia.Paísesemergentes,noconjunto,
sofrerambastante.Nasexta-feira,odólar
chegouacairmomentaneamenteabaixode
R$5duranteopregão.
OBancoCentralnãodeveusarosjuroscom
vistasaestabilizarodólarporqueumúnico
instrumentonãoécapazdeperseguirdois
objetivosaomesmotempo.Seofocoforno
dólar,osjurosdeixarãodeagirpara
estabilizaraeconomiadoméstica.
OBancoCentraltemagido,também,para

garantirobomfuncionamentodomercado
decâmbio. Seuarsenaldeintervençãovem
aumentandoproporcionalmenteà
gravidadedacrise.Alémdeswapscambiais,
estãosendooferecidosaomercadodólaresà
vistaelinhasdeempréstimoemdólares.A
novidadenasemanapassadafoioanúncio
deoperaçõescompromissadasemdólares
comosbancos,comlastroemtítulosda
dividaexternasoberana,osglobalbonds.
AexemplodaatuaçãodoBCnapolítica
monetária,pode-sediscutirnodetalheseos
volumesofertadossãoadequadosouse
valeriaapenaanunciarumgrandeprograma
deintervenção.Masosucessodaatuaçãodo
BCnocâmbionãosemedepeloníveldataxa
decâmbio.Nãoseriaprudentetentar
impedirumatendênciadedesvalorização
cambial,mesmoquemaiordoquea
observadaemoutraseconomias.
OmáximoqueoBancoCentralconsegue
fazerésuavizarosmovimentosdataxade
câmbioedarumpoucoderacionalidadeaos
mercados.Emperíodosdemaiorincerteza,a
formaçãodepreçosficaprejudicada.O
excessodeintervençõesdoBC,comoocorreu
entre 2013 e2014,apenasadiariaum
inevitávelajustenataxadecâmbio–que
tenderiaasematerializarcomforçamais
tarde,comoocorreuem2015.
Seocâmbioestásubindo,emboamedida
refleteocontextointernacionalearealidade
daeconomiabrasileira.Oregimedemetasde
inflaçãocomcâmbioflutuantetemse
mostradoresilienteaolongodotempo,mas
ébomnotarquedependetambémda
terceirapernadotripédepolítica
macroeconômica.Semaâncorafiscal,nãohá
regimemonetárioecambialquesejacapaz
desustentaraeconomia.
Nacrisedocoronavírus,estáclaroqueserá
necessárioflexibilizartemporariamenteas
regrasfiscaisparaqueogovernodêuma
respostaadequadaàcrisenasaúdeeseus
impactosnaeconomia.Masofoconoajuste
fiscaldelongoprazo,semprejuízoàsações
emergenciaisdecurtoprazo,éessencialpara
oequilíbriointernoeexternodaeconomia.
Muitodadepreciaçãocambialealtadacurva
dejuroslongarefleteruídospolíticoscriados
peloprópriogovernocomoCongresso,além
daaprovaçãodeprojetosqueampliamos
gastosdeformapermanenteeextrapolama
respostaemergencialàatualcrise.

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